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Os sabichões de Wall Street

Novo livro de Michael Lewis - nº 1 na lista dos best seller do NYT - narra como investidores se deram bem com a crise do subprime

The New York Times |

A crise financeira mundial de 2008 - que, segundo estimativas de economistas, teria resultado em prejuízos de muitos trilhões de dólares e que já custou ao contribuinte americano bilhões de dólares em ajuda por parte do governo - não foi provocada por alguma guerra ou recessão e sim por uma desgovernada máquina de dinheiro criada pelo homem, construída em cima de modelos matemáticos equivocados que nem mesmo a maioria dos executivos de finanças conseguia entender.

Impulsionadas por muita ganância e pouca atenção, empresas de Wall Street vinham transformando crédito imobiliário com base em subprimes – empréstimos concedidos a pessoas com garantias mínimas de crédito e pouca documentação – em produtos financeiros exóticos e tóxicos que lhes geraram fortunas em operações de revenda e lavagem de dinheiro, e tudo isso foi possível graças às mesmas agências de classificação de riscos que supostamente deveriam policiar os riscos.

A insanidade destas crescentes e altamente alavancadas transações de derivativos de crédito imobiliário persistiu mesmo quando a qualidade de empréstimos obscuros se tornava cada vez mais duvidosa, mesmo quando o estouro da bolha imobiliária americana se tornava cada vez mais provável.

Bloomberg via Getty Images/Bloomberg
Michael Lewis, autor do novo best seller, sobre a crise do subprime em Wall Street: prosa ao estilo do sarcástico Tom Wolfe, escritor de Fogueira das Vaidades
O perigo claro e eminente apresentado por tal edificação insana, construída sobre as fundações instáveis dos financiamentos de subprimes, não foi previsto pelos altos executivos dos principais bancos americanos. Tampouco pelos órgãos reguladores, pelos oficiais do Tesouro ou pelo Fed. Ele foi previsto, porém, por um punhado de investidores perplexos diante da loucura que presenciavam em Wall Street e que usaram suas habilidades de premonição para fazer fortuna a partir da calamitosa crise do sistema financeiro. Algumas de suas estórias são contadas por Michael Lewis no livro "The Big Short".

Ninguém compõe uma narrativa em torno do dinheiro e das finanças com maior maestria que Lewis, autor de "Liar’s Poker" - obra que se tornou um retrato clássico da Wall Street da década de 1980. Em seu novo livro, de leitura bastante agradável, ele não tenta tecer uma visão geral da crise financeira: o que ele propõe é abrir uma pequena janela para observarmos as calamidades por meio de histórias de alguns renegados espertos que ganharam dinheiro em cima da convicção de que o sistema estava podre.

Ao fazer isso, Lewis se depara com o mesmo problema encontrado pelo repórter de Wall Street Gregory Zuckerman em seu livro "The Greatest Trade Ever" – que conta a história de John Paulson, gestor de hedge fund que ganhou US$15 bilhões em 2007 ao prever a bolha imobiliária. Nas duas obras o leitor se vê em uma posição em que toma partido de pessoas que, apesar de mais espertas ou com maior capacidade de antever o futuro do que os primeiros responsáveis pela tragédia, tentaram lucrar (enxergando uma oportunidade rara, como dizem alguns) ao apostar no colapso de nosso sistema financeiro.

Ainda assim, Lewis é sagaz ao usar as histórias de seus personagens para explicar a ganância, as idiossincrasias e as hipocrisias de um sistema notavelmente carente de uma supervisão séria, com empresas que “desdenhavam a necessidade de regulamentações governamentais nos momentos prósperos, “mas” insistiam em receber ajuda do mesmo governo nos momentos de crise”.

Lewis argumenta que as raízes da crise de 2008 podem ser encontradas no livro "Liar’s Poker", da década de 1980, quando foram desenvolvidos produtos financeiros complexos – como os derivativos de crédito imobiliário. Ele também insinua que tais instrumentos financeiros (que tinham nomes do tipo "obrigação de dívida colateralizada sintética”) se tornaram cada vez mais obscuros e complexos para ajudar a mascarar que os mesmos tinham sido desenvolvidos em torno de concessões de créditos cada vez mais suspeitas. Os financiamentos eram concedidos “com muito pouca ou nenhuma garantia”, exigindo pouquíssima documentação e com taxas de juros ajustáveis que inchavam depois de dois anos – e tais financiamentos eram concedidos a trabalhadores migrantes e a imigrantes pobres que mal falavam inglês.

Como descreve Lewis, empresas de Wall Street tinham a habilidade de “esconder os riscos ao complicá-los” e ao conseguir que as agências de classificação de riscos, especialmente a Moody's e  a Standard & Poor's, concedesse a classificação de triplo A para títulos de baixíssima qualidade.

Ele pergunta: “Estaria a Moody's e a Standard & Poor's disposta a abençoar 80% de um conjunto de créditos imobiliários de alto risco com a mesma classificação de triplo A que concedia às dívidas do Tesouro americano?”. Ele dá a entender que as empresas de Wall Street sabiam como jogar com o sistema; elas sabiam como fazer com que as agências de classificação de risco (ávidas por cobrar altas taxas por seus serviços) classificassem títulos arriscados inadaquedamente. Ele observa que a maioria dos modelos de avaliação era baseada em preços de imóveis em alta e usavam “um passado inexpressivo através de estatísticas distorcidas para prever o futuro” - foi assim que “toda a cadeia alimentar de intermediários da máquina dos subprimes” conseguiu enganar a si mesma.

Reprodução
The Big Short: Inside the Doomsday Machine, de Michael Lewis, 266 páginas, editora W.W. Norton & Co., preço nos EUA: US$ 27,95
Escrevendo em uma prosa ligeiramente ao estilo Tom Wolfe, Lewis faz um trabalho colorido ao introduzir o leitor ao mundo Darwiniano do mercado de títulos. Ele escreve: “Um investidor que passou do mercado de ações para o mercado de títulos era como uma criaturinha peluda que cresceu em uma ilha sem predadores e foi removida para uma cova cheia de serpentes venenosas”. Ele tece retratos igualmente vivazes dos personagens centrais de sua história. Ele remarca que todos eles eram figuras estranhas ou excêntricas – pessoas impermeáveis à tomada de decisões em grupo ou à sabedoria convencional e, como ele diz, “cada um deles tinha algo a dizer sobre o estado do sistema financeiro, e também sobre a natureza das pessoas que sobrevivem a acidentes”.

Steve Eisman é um deles. Ele começou como um “republicano estridente” e estava prestes a “se tornar o primeiro socialista do mercado financeiro” quando começou a se convencer, cada vez mais, de que “toda uma indústria, chamada finança do consumidor, “basicamente” existia para roubar das pessoas”. Eisman e sua equipe “tinham profundo conhecimento do mercado imobiliário americano e de Wall Street”, escreve Lewis, e ao ir fundo em análises de crédito de financiamentos imobiliários (que, a princípio, deveriam ter sido feitas antes dos empréstimos serem criados), eles perceberam que poderiam fazer fortuna com a venda a descoberto das piores ações.

Tem também a história de Michael Burry, médico vítima da síndrome de Asperger, cuja obsessão se tornou investir na criação de um fundo com o dinheiro proveniente de um pequeno acordo recebido por sua família com a morte de seu pai - ocasionada por um erro de diagnóstico médico. Burry mergulhou nos estudos do mercado de títulos em 2004 e se convenceu de que os padrões de concessões de empréstimos haviam caído de forma tão alarmante que ele poderia ganhar dinheiro com os subprimes do crédito imobiliário. Lewis relata que, no fim de 2007, “Burry teria realizado lucros de mais de US$ 720 milhões” para seu fundo.

E por fim há o “hedge fund banda de garagem”, criado por Jamie Mai e Charlie Ledley em 2003 com uma conta na corretora Schwab contendo US$110 mil e instalado em uma edícula nos fundos da casa de um amigo na cidade de Berkeley, na Califórnia. Lewis escreve que Ledley acreditava que a melhor maneira de ganhar dinheiro em Wall Street era apostando em algo que o pessoal de Wall Street não acreditava que pudesse acontecer. Neste caso, seus instintos contrários lhe disseram que, nas palavras de Lewis, “os mercados estavam predispostos a subestimar a probabilidade de mudanças dramáticas”.

Quatro anos e meio mais tarde, a economia americana encontrava-se em crise e, segundo Lewis, o fundo comandado por Ledley, Mai e Bem Hocket teria lucrado mais de US$ 80 milhões.

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