Mais de 160 companhias aguardam a vez de levantar recursos na Bolsa, maior número desde 2000, mas demanda ainda é uma incógnita

Os dutos de Wall Street IPO estão congestionados. Cento e sessenta e uma empresas têm planos de levantar mais de US$ 56 bilhões (R$ 96 bilhões, em valores atuais) com ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês), de acordo com a Renaissance Capital, uma firma de pesquisa da indústria. Essa é o maior volume de empresas na fila para um IPO desde 2000 – e a maior quantidade de dólares reprimida nos registros.

Operadores da Bolsa de Nova York na última sexta-feira: operações de oferta de ações já na fila podem somar R$ 96 bilhões
Bloomberg via Getty Images/Bloomberg
Operadores da Bolsa de Nova York na última sexta-feira: operações de oferta de ações já na fila podem somar R$ 96 bilhões

"Nós não víamos esse grande aumento da demanda há algum tempo ", disse Linda R. Killian, diretora da Renaissance. "A questão é se o mercado pode absorver tudo isso."

A enorme disparidade ressalta um fato desagradável: dois anos após a eclosão da crise financeira, o mercado acionário continua frágil. Embora tenha havido uma alta robusta dos títulos de dívida, com empresas agressivamente emitindo papéis para tirar proveito dos juros baixos, o apetite por ações continua fraco. A capacidade dos banqueiros de Wall Street de absorver esses IPOs até o final do ano vai testar a saúde do mercado de ações.

O gargalo das ofertas públicas iniciais é em parte um reflexo da extrema volatilidade do mercado registrada nos últimos três anos. A crise financeira congelou grande parte dos mercados de capitais por 18 meses, o que impediu as empresas de levantar dinheiro. Mas, depois de uma forte alta das ações – entre seu ponto mais baixo, em março de 2009, e o mais elevado, em abril de 2010, o índice Standard & Poor's 500 subiu 78% -, cerca de 130 empresas se perfilaram para ofertas públicas iniciais no primeiro semestre deste ano, de acordo com a Renaissance.

Rosário de problemas

Mais tarde, já na primavera (do hemisfério norte, que começa em março), veio uma série de eventos que fizeram o mercado de ações retroceder: a crise da dívida na Europa, o derramamento de petróleo da BP e a chamada queda-relâmpago do índice Dow Jones, que em maio, por um breve momento, mergulhou em uma perda de quase mil pontos. Investidores mais ariscos passaram a evitar as ações, o que teve, como resultado, o fato de poucas empresas conseguirem completar seus IPOs.

"O mercado acionário está efetivamente em recessão desde agosto de 2007", disse David J. Goldschmidt, advogado do escritório Skadden, Arps, Slate, Meagher & Flom, especializado em operações do mercado de capitais. "E toda a volatilidade e a incerteza tornam difícil a venda de papéis no mercado."

As empresas que hoje dominam o retesado duto das ofertas públicas são muito diferentes das que se via em 2000. Naquele ano, 237 companhias, um número recorde, estavam tentando levantar US$ 28,5 bilhões com ofertas públicas inicias, de acordo com a Dealogic, um provedor de dados financeiros. Isso foi no auge do boom das pontocom, quando o sangramento de dinheiro para empresas startup (iniciantes), como a Pets.com e a Webvan, explorou o apetite insaciável dos investidores por ações de tecnologia – e essa história não teve um final feliz.

Hoje, muitos dos maiores IPOs na prateleira são de empresas grandes e estabelecidas, que abriram seu capital durante o boom de aquisições ocorrido entre 2005 a 2007. Essas companhias estão prontas para voltar para aos mercados. A lista inclui Toys R Us, Nielsen e a consultoria Booz Allen. O Hospital Corporation of America, que diz que espera levantar US$ 4,6 bilhões, está entre os maiores negócios na fila.

Expectativa com a GM

A maior operação deverá ser a da General Motors, que atualmente tem 61% de seu controle nas mãos do governo dos Estados Unidos. O resultado da oferta da GM talvez seja a maior pergunta que paira sobre o cenário dos IPOs. O negócio está programado para ocorrer em um momento de queda do mercado e levantar cerca de US $ 15 bilhões. Isso faria dela a segunda maior oferta pública da história dos EUA, atrás apenas do IPO da Visa, em 2008, que arrecadou US$ 19,7 bilhões.

Sede da montadora americana na cidade de Detroit, nos EUA: reabertura de capital é aguardada com ansiedade
Getty Images
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“Esse mercado não é como o de 2000, quando as empresas levantavam dinheiro para drogas de eficácia ainda não comprovada ou para tecnologias embasbacantes”, disse John A. Chirico, executivo-sênior de mercado de capitais do Citigroup. “Hoje, a maioria das empresas na fila tem negócios consolidados, e muitas delas têm força financeira para continuar com o capital fechado."

Ainda assim, os fundos de private equity estão ansiosos para vender ações em seu poder. Em alguns casos, esses fundos pensam em usar as operações para equilibrar os balancetes de suas companhias, absorvendo o enorme volume de dívidas que assumiram para as aberturas de capital. Em outros casos, as empresas querem usar os IPOs para devolver dinheiro a seus controladores, que, em muitas situações, não conseguiram embolsar lucros nos últimos dois anos. E, no exemplo específico da oferta da GM, o governo está disposto a se desfazer de sua participação.

A liberação da fila dos IPOs ajudaria também dezenas de empresas controladas por fundos de private equity, que ensaiaram acessar o mercado acionário. Nos últimos meses, representantes de bancos se reuniram com os fundos especializados em compras de companhias para discutir ofertas para alguns de seus maiores investimentos. Entre esses alvos estariam a Freescale Semiconductor (do setor de semicondutores) e a Michaels Stores (varejista especializada em artigos de decoração e presentes), segundo pessoas a par das discussões.

Preço baixo

As poucas empresas que tentaram recentemente acessar o mercado acionário, sob um cenário pouco favorável, tiveram pouco sucesso. A precificação de ações ofertadas em novas emissões é a mais baixa em cinco anos, segundo dados da Thomson Reuters. Em julho, por exemplo, a NXP Semiconductors, fabricante de chips holandesa controlada pela Bain Capital e pela Kohlberg Kravis & Roberts, levantou US$ 476 milhões depois de reduzir seu preço de oferta em 33%. As ações estão sendo negociadas por um preço 15% menor que o do IPO.

Em vez de vender ações em um mercado pouco receptivo e arriscar um negócio decepcionante, vários fundos de private equity estão buscando uma "dupla abordagem" – se candidatam ao IPO ao mesmo tempo em que negociam com potenciais compradores, o que aproveitaria a recuperação do mercado de fusões e aquisições.

Na semana passada, a Univar, uma grande distribuidora de produtos químicos controlada pelo fundo de private equity CVC Capital Partners, retirou o seu IPO e, em substituição, vendeu metade de seu controle para a butique financeira Clayton, Dubilier & Rice. A mesma coisa aconteceu no início deste ano, quando a Vestar Capital Partners pôs na fila dos IPOs a empresa de alimentos Birds Eye Foods. Em lugar da oferta pública de ações, a companhia foi vendida para o Pinnacle Foods Group, de propriedade da Blackstone.

Há algumas razões para o pouco otimismo. Uma pesquisa recente do Citigroup com investidores institucionais – fundos mútuos, fundos hedge e fundos de pensão (que representam a maior parte dos compradores de ações nos IPOs) – mostra um acúmulo de grandes quantias em dinheiro em suas carteiras, um sinal de que eles poderiam estar avaliando a compra de ações. No entanto, o mesmo relatório diz que “há dinheiro significativo nas sobras, mas pouca confiança.”

“Acho que os investidores querem pôr o capital para girar", disse Goldschmidt, do escritório Skadden Arps. “Mas eu sou um otimista.”

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