Participação de estrangeiros em papéis do governo sobe três vezes mais que o estoque desses títulos de janeiro a maio

As taxas de juros não servem apenas para controlar a inflação. As altas promovidas este ano pelo Banco Central (BC) também estão ampliando o interesse de investidores estrangeiros por ativos do País. Atraídos pela alta rentabilidade e pelo ambiente macroeconômico mais estável, os aplicadores não residentes vêm aumentando suas posições em títulos públicos nacionais.

O mais recente boletim de renda fixa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) ilustra muito bem essa situação. De janeiro a maio, o estoque de dívida pública federal cresceu cerca de 8,9%. Já o estoque de papéis públicos detido por estrangeiros aumentou três vezes mais e subiu 24%, representando 8,1% do total da dívida. O estoque de títulos públicos brasileiro fechou maio em R$ 1,49 trilhão, sendo que R$ 120,69 bilhões ficaram com os não residentes.

“É tudo uma questão de relação entre juros altos e risco baixo”, diz Alfredo Moraes, vice-presidente da Anbima. Ele lembra que os estrangeiros estão aproveitando os bons fundamentos brasileiros, o crescimento da economia e seu risco mais baixo para comprar cada vez mais papéis do governo.

Os títulos públicos também atraem por questões fiscais. “Os investidores não pagam imposto de renda na fonte quando compram papéis do governo, mas pagam para outros títulos de renda fixa”, lembra Hitoshi Castro, diretor geral do banco comercial do Fator.

Detentores de títulos públicos em mercado

Estoque de R$ 1,49 trilhão em maio de 2010

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Anbima

Um mercado em expansão

Toda essa atratividade, segundo os especialistas, não deve diminuir nos próximos meses. A própria crise financeira, que deixou em frangalhos muitas economias europeias, se transforma em oportunidade para os fundos de países desenvolvidos que conseguiram reter recursos.

Nesse caso, os administradores precisam buscar rentabilidade de suas carteiras, e não conseguirão fazê-lo no mundo desenvolvido. “Mesmo que nossa taxa de juros só suba mais 0,25 ponto percentual até o fim do ano, fecharemos com 11% em 2010”, observa André Perfeito, economista da Gradual. “Que país oferece essa taxa de juros e ao mesmo tempo é grau de investimento pelas agências de risco?”

O economista lembra que, nos países desenvolvidos, a taxa de juros está muito baixa, próxima do zero, justamente para impulsionar as economias. Com isso, as opções de investimento na Europa e nos Estados Unidos se restringem. “Essa procura coroa todo o processo brasileiro de busca da estabilidade macroeconômica.”

Para Castro, do Fator, outros tipos de títulos devem entrar no radar dos investidores, competindo com os papéis do governo. “Os títulos imobiliários e agrícolas pertencem a setores muito cobiçados pelo não residente.” A expectativa de crescimento do Brasil nos próximos anos sustenta essa demanda.

Apesar de todo esse avanço, Gilberto Poso, superintendente-executivo de gestão de patrimônio do HSBC Brasil, lembra que é preciso relativizar os números. “Estamos ganhando relevância, mas ainda somos irrelevantes no mapa de investimentos internacional.” Segundo ele, esse é um mercado em ascensão, mas ainda ocupa uma parte pequena dos portfólios dos investidores estrangeiros.

Dados oficiais divulgados essa semana pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) apontam que o Brasil é hoje a economia emergente com o maior volume acumulado de créditos de instituições estrangeiras: US$ 403 bilhões em março. O montante, entretanto, é mínimo - apenas 1,3% - em relação ao volume global, que foi de US$ 30,4 trilhões.

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