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Carteira de dois fundos tem até 90% dos recursos classificados como vencidos e não-pagos

O rombo da Union National pode ultrapassar um valor superior ao inicialmente previsto. A empresa de factoring transformada em gestora de recursos de terceiros, que é controlada por Maurice Kattan e André Kamkhaji, pode deixar uma perda superior a R$ 1 bilhão no mercado, segundo estimativas com base nos relatórios oficiais do próprio fundo.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que fiscalizado o mercado de capitais, informou que supervisionou o administrador dos fundos da Union National e que constatou a deterioração da carteira de títulos de um dos fundos, conforme divulgou em seu website.

A empresa, cuja sede fica em São Paulo, no bairro de Higienópolis, zona nobre da cidade, criou dois fundos de investimento para o recebimento de títulos de créditos – conhecido no jargão financeiro como FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).

Um deles tinha patrimônio de R$ 760,3 milhões no dia 14 de julho de 2010, segundo documento do próprio fundo entregue à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas a maior parte deste valor – cerca de R$ 686 milhões – já havia sido enquadrada como créditos vencidos e não-pagos, o que dificilmente serão recuperados pelos investidores. Na prática, esse valor representa mais de 90% do que foi investido pelos administradores.

O outro fundo, que era investido em títulos do agronegócios, tinha um patrimônio total de R$ 324 milhões, dos quais R$ 136 milhões estão vencidos e não-pagos, segundo documentos datados do dia 14 de julho.

Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira pelo jornal “Valor Econômico”, 17 investidores, em sua maioria fundos de investimentos estrangeiros, compraram cotas destes fundos. O jornal estimou a perda em R$ 800 milhões com apenas um dos fundos.

Fontes de bancos afirmam que o mercado vinha demonstrando preocupação com a saúde do FIDC Union National. O fundo, que começou pequeno, teria crescido de maneira muito rápida, em cerca de dois anos, levantando especulações sobre a qualidade de seus ativos. As fontes também ressaltam que investir em fundo de factoring já é um negócio arriscado, por sua natureza: factorings aplicam em empresas com dificuldades de obter crédito por vias tradicionais e, por isso cobram mais caro dos clientes. Quando há retornos, também são mais altos.

O que se comenta nas mesas de operações é que, provavelmente, o FIDC ganhou notoriedade pegando carona na forte liquidez que tomou conta do mercado financeiro mundial a partir do ano de seu lançamento, em 2006. Investidores estrangeiros estavam com dinheiro sobrando para investir, e não se importaram muito com a qualidade do crédito comprado, até que foram pegos pela crise e deixaram de honrar pagamentos.

Os profissionais se dizem surpresos com o fato de que, no segundo semestre de 2009, fundos de pensão brasileiros também começaram a aplicar nesse tipo de produto. Um fundo de pensão seria um dos investidores do FIDC Union National.

O iG procurou os donos da Union e a Oliveira Trust, gestora do fundo, e não obteve retorno do pedido de entrevista.

A Austin, responsável pela classificação de risco de um dos fundos, informou que fez um alerta sobre a deterioração da carteira aos investidores. “O primeiro e o segundo pagamentos estavam adequados. Quando constatamos a deterioração, alertamos o mercado”, afirmou Erivelto Rodrigues, sócio da Austin Rating.


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