Depois de meio ano com a percepção de que o pior da crise havia acabado, a recuperação dos mercados financeiros perde fôlego, a volatilidade está de volta e as incertezas passam a ameaçar a retomada do crescimento nos países ricos. Se não bastasse isso, a dívida das economias industrializadas está em grande parte nas mãos de bancos comerciais e o risco é de que um eventual calote de economias da zona do euro arraste o mercado financeiro e jogue o mundo em uma nova recessão.

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Esse é o cenário apresentado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), que indica que apenas os governos europeus têm US$ 1,2 trilhão em dívidas nas mãos de bancos. Depois de salvar instituições financeiras em 2008 com recursos públicos, governos promoveram uma corrida exatamente aos bancos por empréstimos para rolar suas próprias dívidas e evitar um default (calote). Em apenas um ano, pegaram emprestado de bancos US$ 800 bilhões a mais do que haviam tomado um ano antes.

A constatação do BIS é de que, depois de dez meses de alta nas bolsas e uma volta aparente do otimismo, o mercado financeiro patina em 2010 e vive uma nova queda, com uma perda no valor de ações e uma redução acentuada na demanda por ativos que representem maior risco. A volatilidade em janeiro atingiu seu ponto mais baixo desde a quebra do Lehman Brothers, em 2008. Esse cenário foi desfeito e os últimos dois meses foram marcados pela volta da volatilidade e uma aversão aos risco por parte de investidores.

Segundo o BIS, dois são os fatores desse novo "freio" no cenário internacional: a dívida dos países ricos e a incerteza provocada pela recuperação desigual no Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Dívidas

No que se refere aos riscos das dívidas, o BIS adverte que não é apenas a situação da Grécia que preocupa, mas também o risco de contágio a outras economias, como Portugal e Espanha. Ações de bancos desses países já sofreram e a incerteza nos mercados ainda continua, apesar da promessa da UE de atuar de forma coordenada para garantir a estabilidade do euro. Nem mesmo as promessas do governo grego de que cortariam suas dívidas foram suficientes e a confiança dos investidores continuou frágil.

O que preocupa agora é a exposição dos bancos a países altamente endividados. Para analistas, uma eventual moratória de uma economia relativamente pequena poderia ter efeitos profundos, contagiando outros exatamente pela exposição dos bancos. O mapeamento do BIS indica que o volume de créditos dado por bancos ao setor público vem aumentando desde o início de 2009.

Em nove meses, governos pegaram US$ 806 bilhões emprestados de bancos, uma alta de 20%. Hoje, 18,3% de todo crédito de bancos foi para governos e a corrida dos governos aos bancos foi generalizada. No Japão, o aumento da exposição dos bancos ao setor público foi de 26,4%, uma alta de US$ 166 bilhões. Os países da zona do euro pediram novos empréstimos em US$ 171 bilhões a mais que um ano antes. No Reino Unido, a expansão foi de 64%, contra 29% na França.

Grande parte do aumento foi o novo crédito e empréstimos dados por bancos aos governos nos Estados Unidos. A alta foi de 20%, o equivalente a US$ 228 bilhões em créditos aos governos.

A ampliação da exposição dos bancos sobre o setor público da Grécia, Espanha e Portugal foi limitada em 2009 e não alcançou mais de 9%.

Mas a exposição total dos bancos europeus em relação a esses países supera a marca de US$ 233 bilhões. A taxa de exposição dos bancos em relação ao setor público desses países também é bastante superior ao do restante da Europa. Na França, os bancos garantem 32% dos recursos ao setor público, contra 46% na Alemanha. Mas a taxa chega a 84% em Portugal, 78% na Espanha, 77% na Itália e 73% na Grécia. Na média, os bancos europeus garantem créditos e empréstimos a 60% do setor público europeu, o equivalente a US$ 1,2 trilhão.

Recuperação

Outro fator que causa uma redução do apetite ao risco é a incerteza sobre a recuperação das economias dos Estados Unidos e da Europa. Para o BIS, há uma divisão cada vez mais clara entre os países emergentes e as economias ricas, penando para voltar a crescer.

O cenário de incertezas fez com que as bolsas perdessem 5% entre janeiro e fevereiro. Isso depois de uma expansão de 55% nos países ricos entre março e janeiro e de mais de 85% nos mercados emergentes. No Brasil, o Índice Bovespa ganhou mais de 60% no período, contra 200% da bolsa da Índia.

O mercado ainda se mostrou hesitante diante das decisões dos Estados Unidos de desmantelar parte da ajuda ao sistema financeiro. Para o BIS, esse é um sinal claro da aversão ao risco predominando no mercado.

Outra constatação do BIS é de que a retomada dos fluxos de créditos e o crescimento nos países emergentes também permitiu que os governos dessem os primeiros passos para começar a retirar medidas de apoio aos bancos e normalizar suas políticas monetárias.

Para o BIS, o desmonte de políticas de apoio "demonstra que a recuperação nos países emergentes está bem à frente do ciclo nas economias maduras".

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