Com o crescimento dos financiamentos, surge a preocupação com longo prazo

Animados por boas perspectivas de emprego e renda e por uma enxurrada de oferta de crédito fácil, os brasileiros estão assumindo dívidas. Os financiamentos de veículos, por exemplo, cresceram 12,8% em abril, com relação ao mesmo mês de 2009, para R$ 163,9 bilhões, segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). Na opinião de economistas, enquanto o Brasil vai bem e as pessoas estão empregadas, elas pagam suas dívidas, e não há preocupação. No entanto, alguns alertam para riscos no futuro.

Em geral, especialistas concordam que o Brasil não deve enfrentar bolhas no mercado automobilístico - uma vez que a renda e o emprego estão em bons patamares. Atualmente, a taxa de inadimplência brasileira está em torno de 4,5%, nível considerado baixo. Na opinião de Celso Grisi, presidente do instituto Fractal e professor da Universidade de São Paulo (USP), os índices de inadimplência devem subir já no segundo trimestre deste ano, para terminar 2010 em torno de 6,5% e 7%.

Mesmo com a alta projetada, Fábio Moraes, gerente de educação financeira da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), acredita que o sistema financeiro brasileiro não corre riscos no curto prazo. “Uma taxa entre 5% e 7% ainda é pequena”, diz. No entanto, ele afirma que o cenário poderá se tornar complicado no longo prazo, em cinco ou seis anos, caso se mantenha nesse ritmo. “Se não fizermos nada agora, podemos entrar em uma situação problemática”, afirma. Uma das soluções apontadas por Moraes é a educação financeira.

O aumento do juro não inibirá as compras, diz Décio Carbonari de Almeida, presidente da Anef
Divulgação
O aumento do juro não inibirá as compras, diz Décio Carbonari de Almeida, presidente da Anef
Espaço para mais consumo

Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo, que administra o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), afirma que o endividamento total das famílias e o comprometimento com prestações ainda são “relativamente” reduzidos. “Ainda há espaço para o aumento do consumo, independentemente se este é ou não financiado com crédito”, diz.

Mesmo em um cenário de maiores juros, com os esperados aumentos da Selic (a taxa de referência do País), os brasileiros devem pagar suas dívidas, na visão de Solimeo. Com o aumento do juro básico brasileiro, sobem as taxas de financiadoras de automóveis, explica Décio Carbonari de Almeida, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). Mas tanto Solimeo quanto Almeida acreditam que o crescimento do emprego e da renda durante 2010 deve manter a inadimplência baixa.

“O aumento do juro não será um inibidor na hora da compra”, afirma Almeida, pois o que mais importa para a grande parte dos brasileiros é o valor da prestação, segundo ele. “Esta é uma realidade no Brasil. Os novos consumidores – vindos das classes C e D – precisam de prestações mais baixas”, diz. No primeiro trimestre, a taxa de juros média de financiamento de veículos foi de 1,4%.

O que vai determinar a decisão da aquisição do veículo, segundo o presidente da Anef, será a confiança na economia. “Se o consumidor confia no emprego e sente que as coisas continuam indo bem, ele faz o financiamento independente da taxa de juros”, diz. Outro reflexo do foco do consumidor brasileiro para o valor da prestação é o alongamento do prazo médio de financiamento de veículos. De 40 meses em 2009, o período passou a 43 meses este ano. Na opinião de Almeida, esse aumento é pequeno e também não preocupa.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.