Tamanho do texto

Brasil precisa de instrumentos mais adequados para investir em infraestrutura e crescer, afirmam presidentes de bancos

O maior desafio do sistema bancário brasileiro num quadro de estabilidade econômica é o desenvolvimento de formas mais sólidas de financiamento de longo prazo. A discussão foi levantada nesta quinta-feira por presidentes de bancos durante Seminário Internacional da Acrefi, em São Paulo.

De acordo com eles, o Brasil precisa investir mais em infraestrutura, mas necessita de instrumentos mais adequados para bancar seu crescimento. “Passamos por um momento muito positivo atualmente, com emprego em alta, incorporação de novas classes de consumidores e eventos importantes de infraestrutura em vista, como Copa do Mundo e Olimpíadas”, disse Fabio Barbosa, presidente do Santander e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). “O problema, agora, é como vamos desenvolver um sistema consistente de empréstimos de longo prazo.”

Segundo Barbosa, as instituições financeiras já estão conversando com o governo para tentar criar leis e instrumentos de dívida mais líquidos e com melhores condições de negociação. Ele conta que a crise financeira internacional reforçou a necessidade de o Brasil olhar para dentro ao buscar financiamento para crescer. “Por enquanto, a liquidez no mundo está grande, mas não podemos confiar apenas no exterior para tocar nossos projetos”, afirmou.

O presidente do Santander defende, entre outras medidas, o desenvolvimento de um mercado secundário de títulos, que deixe os investidores mais à vontade para entrar e sair dos papéis. Outro ponto necessário é a desindexação dos instrumentos de débito brasileiro do CDI, uma taxa diária. De acordo com Barbosa, a indústria bancária precisa casar empréstimos mais longos com taxas idem.

Conrado Engel, presidente do HSBC, acrescentou, durante o mesmo evento, que essas mudanças passam por regulações mais específicas, que deixem os títulos mais atraentes e elevem o apetite dos investidores. Ambos, no entanto, não deram muitos detalhes sobre as propostas.

Engel disse, por exemplo, que as mudanças passam também pela criação de títulos mais adequados à nova realidade. A criação das letras financeiras foi uma boa medida tomada nessa direção. “Mas ainda podemos discutir a questão do compulsório sobre as letras financeiras, que pode ser menor.” O compulsório é uma taxa de recolhimento exigida pelo Banco Central para preservar o capital dos bancos.

A diminuição do compulsório também foi defendida por Louis Bazire, presidente do BNP Paribas. “Devemos investir mais, mas encontrar soluções para bancar esse desenvolvimento.”

Bolha

No seminário, os presidentes dos bancos e executivos também questionaram se a forte liquidez internacional pode, em breve, gerar uma bolha de crédito em alguns países. Mauro Leos, vice-presidente da Moody’s América Latina, comentou que essa situação pode trazer perigos para nações como o Brasil.

Ele lembrou que, como os países desenvolvidos estão com taxas de juros muito baixas, para estimular suas economias após o baque da crise, os investidores acabam transferindo seus recursos para os emergentes, como o Brasil, que oferecem possibilidades de retorno e crescimento mais altos. “Sabemos que momentos de crescimento muito forte tendem a gerar bolhas, já que a oferta muito fácil de crédito pode elevar demais os preços. A questão é saber quando a bolha pode se formar e trabalhar para evitá-la.” De acordo com ele, o Brasil precisa de mais reservas fiscais para se proteger, medida que já tomam Chile, Peru e Rússia.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.