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Eventos da Dinastia vendem sonho de riqueza

Em encontros que reúnem milhares de pessoas, líderes contam como subiram na vida e premiam integrantes por boas vendas

Denyse Godoy, iG São Paulo |

Entre moças com vestidos brilhantes e homens de ternos bem passados, quase 6 mil pessoas compareceram recentemente a um evento da Dinastia Soluções Financeiras no auditório da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), em Porto Alegre. Realizados praticamente todos os meses em grandes cidades brasileiras, os encontros reúnem participantes da rede daquela região e de longe e juntam técnicas de motivação, reconhecimento e promessas de ganhos, embalados por música alta e muitos depoimentos de sucesso.

nullO objetivo é estimular os associados da empresa de vendas de seguros para a rede de relacionamentos a trazer mais e mais sócios, o que os faz galgar degraus na escala hierárquica e, consequentemente, aumentar a renda. Do associado e, é claro, também da Dinastia.

O ambiente nesses encontros é de grande entusiasmo, conforme mostra o vídeo ao lado. Ao som de música pop dançante, o mestre de cerimônias, um dos líderes da Dinastia, guia o evento como se estivesse diante de um programa de auditório. A saudação inicial tem senha e contra-senha. “Como vocês estão?” “Maravilhosamente beeeeeem!”, responde o coro em uníssono, acompanhado de danças, palmas e mãos levantadas em coreografia.

Diretor comercial da Dinastia, Edmilson* começa a primeira parte do encontro com palestras motivacionais: “Nunca diremos que é fácil.” Silêncio. “Não é fácil, mas é simples”, esboça um sorriso, sem abandonar o tom solene. Por mais oito horas, cada um que tomar a palavra tentará mostrar que é possível ficar rico e financeiramente independente com a adesão à rede.

O que a Dinastia afirma propor a seus integrantes é um novo modelo de economia colaborativa. “O sucesso de um associado é construído sobre o resultado do outro”, diz Edmilson. “Enquanto nas companhias comuns impera a competição dos funcionários, nós optamos pela cooperação e ajuda mútua.” Na sua opinião, a rivalidade generalizada e a agressividade explicam os atuais males da humanidade: o divórcio, o estresse, a hipertensão, o descaso com as crianças, a depressão, a ansiedade, a violência, o abuso de drogas.

A apólice de seguro de vida que a Dinastia vende – razão de existir da empresa, de acordo com o seu fundador, Dilso J. Santos – é mencionada apenas uma vez durante todo o encontro. Perguntados pelos corredores, os presentes reforçam que tal benefício não é mesmo o motivo de ali passarem uma tarde e uma noite de domingo. Atrai-os, na verdade, a oportunidade de negócio representada pelo plano de cooptação de outros integrantes, que promete gordos dividendos para os associados que se engajam no processo.

“Se você gosta de um restaurante ou de um filme, indica a seus amigos. Aqui, você é pago por essa propaganda natural boca a boca”, afirma Edmilson.

Os associados desembolsam R$ 126 todo mês em troca dos benefícios, em um pacote que inclui o seguro de vida. À medida que entram na cadeia, os novatos rendem comissões – porcentagens sobre a mensalidade – a quem os traz para o sistema, e da mesma forma os integrantes por eles atraídos, em uma corrente proclamada infinita.

“Qual é a melhor maneira de enriquecer e aumentar seu patrimônio, sem patrão, sem empregados, com um capital de giro baixo e sem limites de ganhos?”, pergunta o líder Edilson, em um treinamento menor promovido recentemente em São Paulo. A plateia responde de volta: “Dinastiaaaaaaa!”.

Na segunda fileira da plateia paulistana, quatro garotos ainda adolescentes conversam entre si: “Pra que ralar quatro anos em uma faculdade e sair ganhando R$ 1.800, se com a Dinastia pode-se chegar a R$ 7 mil?”.

A renda vitalícia prometida, dizem os organizadores, depende de duas variáveis: o tamanho dos sonhos e o grau de esforço individual em captar novos associados e mantê-los firmes na rede mês a mês.

Relatos de ganhos vultosos são raridade, porém. “Não estou aqui só pelo dinheiro, mas por causa do relacionamento social também”, afirma, no intervalo da reunião na capital gaúcha, o aposentado Valmir, de Lages (SC). “O cálculo é o seguinte: R$ 126 não vão deixá-lo mais pobre, mas R$ 7 mil podem fazer a diferença.”

Além dos relacionamentos, o gasto com o seguro é também um bom argumento a quem se associa à rede. “Estou na Dinastia há quatro anos e minha carteira ainda é pequena, mas porque eu me descuidei do trabalho de trazer outras pessoas”, afirma Eliana, funcionária pública na casa dos 50 anos, de Porto Alegre. “De toda forma, gosto de saber que minhas três filhas ficam protegidas pelo meu seguro de vida.”

Sim, você pode!

Recursos usados para reforçar a valorização do mérito, do comprometimento e da perseverança, os vídeos com mensagens filosóficas e emocionais são bastante repetidos durante os eventos.

O campeão de exibições é o testemunho do nicaraguense Tony Melendez. Apesar de ter nascido sem os dois braços, Melendez tornou-se violonista e chegou a se apresentar para o papa João Paulo II quando o pontífice visitou os Estados Unidos, onde o músico vive desde criança. “Não me digam que não podem. Vocês podem fazer mais. Apenas levantem-se e digam: eu quero, eu posso, eu vou seguir em frente. Tem um mundo esperando vocês dizerem sim”, exorta o artista no final da gravação, exibida por Dilso J. Santos, o criador da Dinastia, no encontro em Porto Alegre.

Ele afirma que os exageros são desencorajados nas palestras e os líderes mais afoitos nas táticas de convencimento, repreendidos. Quando questionado, depois, sobre o fato de ele próprio ter empregado tal vídeo, responde: “Não entenda errado. Passei esse filme para falar da questão espiritual, eu não estava tratando diretamente da Dinastia”.

Algumas vezes, o evento parece tender a reforçar as matizes religiosas. Uma imagem de Jesus Cristo mostrada no telão, por exemplo, foi aplaudida de pé na reunião em São Paulo.

nullCarros, apartamentos, viagens

Líderes na faixa de vinte e poucos anos lançam mão de outros recursos em suas apresentações: expõem fotos de suas casas, da curtição na praia em plena segunda-feira, do automóvel do ano, de motos. Relatam que seu maior prazer é ostentar as conquistas, tripudiando sobre quem deles zombou por ocasião da sua aderência à Dinastia.

“Quando entrei, pessoas de fora falaram que eu estava me envolvendo em uma seita. Hoje, porém, sei que adotei uma receita de sucesso”, grita o jovem Andry*, de Novo Hamburgo, no evento na capital gaúcha, sob aplausos.

Giovani*, de 20 anos, afiliou-se ainda menor de idade, o que atualmente não é mais permitido. Apoiado em uma planilha, compara “fazer Dinastia” – expressão empregada pelos associados para designar a atividade – a um emprego comum e à gestão de um negócio próprio. “De um lado, enfrentar um chefe, aposentar-se pelo INSS depois de 35 anos, sofrer com o risco do desemprego”, diz. “Outra opção é lutar contra a burocracia de administrar uma empresa no Brasil, procurar um ponto comercial, lidar com funcionários.” As vantagens de tornar-se um “dinasta” nem se comparam, continua: horários flexíveis, baixo investimento, liberdade, e a garantia de uma renda residual e permanente.

Com um trecho do filme “A Lista de Schindler”, que fala de um alemão que ajudou mais de mil judeus a escaparem dos nazistas no Holocausto, encerra sua exposição clamando: “Salvem quem vocês puderem salvar!”. Convidar para a Dinastia, segundo seu raciocínio, é levar ao próximo a chance de uma vida mais próspera.

Leonardo*, principal associado em São Paulo, abraça a missão lançada pelo presidente da empresa de multiplicar a rede no maior município do País e divide-a com seus conterrâneos. “Qual é a cidade mais rica e populosa do Brasil, pessoal? Não precisa nem sair do seu condomínio. A cada 40 horas, 10 mil novas pessoas nascem. Tem 10 mil novos empregos a cada 40 horas? Não tem, precisarão fazer Dinastia!”

Premiações

A parte final do evento é dedicada a reconhecer os associados que naquele mês avançaram na hierarquia da rede ao atingir determinados números de membros em suas colunas descendentes.
Flávio*, piloto de helicóptero de Esteio (RS), tem o empenho recompensado: suas contas apontam mais de 16 mil sócios na sua linhagem, volume que lhe proporcionaria rendimentos entre R$ 70 mil e R$ 110 mil todo mês. Durante o evento em Porto Alegre, ele chama a mulher, o irmão, os pais e outros parentes ao palco para com ele compartilhar o recebimento de um cheque de R$ 212 mil, seu quinhão na distribuição anual de royalties da empresa. Quando sobe ao palco, latinhas de serpentina espoucam, forrando o chão de papel multicolorido e miniaturas de notas de dólar.

Flávio entrega broches e placas com os símbolos de cada nível – estrelas ou mandalas – para seus companheiros de empreitada. Conforme um sócio indica outro, ele forma sua corrente e é agraciado com títulos que indicam a sua posição na entidade. Quem possui de 12 a 34 descendentes é nomeado “Antares” (por causa da estrela); de 35 a 80, “Delta Red” (em referência à razão social da empresa, Delta); acima de 81, “Omni-Cycle” (omni, em latim, significa “todos”, e se refere à norma de que, nesse nível, o integrante obtém participação nos resultados globais da Dinastia). São militares, autônomos, comerciantes, advogados, cabeleireiros, donas-de-casa, pastores – profissionais de todos os ramos, que acreditam na empresa.

*Os sobrenomes dos associados foram omitidos

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