Tamanho do texto

Economistas e estudiosos não negam benefícios de eventos esportivos, mas alertam para um possível "oba-oba" nas projeções

Espacialistas questionam construção de estádios. Investimento em infraestrutura é o preferido
AP
Espacialistas questionam construção de estádios. Investimento em infraestrutura é o preferido
Com a definição da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e das Olimpíadas em 2016 no Brasil, começam as projeções sobre os ganhos que o País terá em geração de empregos, obras e crescimento econômico. Muitos números, no entanto, têm sido superlativos e alguns especialistas já fazem o alerta: há desafios e o impacto da Copa e das Olimpíadas sobre o Produto Interno Bruto (PIB) pode não ter a magnitude imaginada.

O primeiro senão levantado é óbvio: haverá demanda para hotéis e estádios após os eventos? “A utilização futura de novos parques olímpicos no Brasil é absolutamente questionável”, diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. Ele lembra que muitas obras feitas para os jogos Panamericanos estão praticamente abandonadas.

A questão da ocupação futura é crucial para despertar o interesse dos investidores privados. Luciano Lewandowski, sócio da Prosperitas, um dos maiores fundos imobiliários do País, afirma que obras ligadas aos eventos esportivos não estão em seu foco. Falta de demanda é a principal justificativa para o desinteresse.

A eventual ausência de investidores privados levanta outro alerta, que é a possibilidade de haver substituição de obras. “Se a iniciativa privada desistir de muitos projetos, o governo terá de assumir”, diz Otto Nogami, professor do Insper.

O problema nesse caso é que, com o cobertor curto, o governo teria de abrir mão de outras obras para executar os projetos voltados à Copa e às Olimpíadas. “O efeito sobre o Produto Interno Bruto será zero, caso essa transferência aconteça”, diz Nogami. Além disso, ele afirma que o desvio de recursos, destinados para obras de infra-estrutura a estádios, atrasa ainda mais o desenvolvimento do Brasil.

Antecipação de crescimento

Para Fernando Aguirre, sócio da consultoria KPMG, é muito difícil mensurar quanto do crescimento do País virá das obras dos eventos esportivos. Ele lembra que o Brasil já vem se expandindo a taxas relativamente altas e muitas obras que poderiam ser incluídas no pacote “Copa e Olimpíadas” fazem parte do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). “Tem muita coisa que já vem sendo tocada, muita obra de infraestrutura que facilmente pode ser incluída no rol de projetos desses eventos”, afirma. Nesse caso, o benefício da chegada dos eventos esportivos é temporal. “Funciona como um acelerador de PIB.”

Mas Gonçalves, do Fator, volta a fazer o alerta: há risco de o crescimento ser apenas pontual, antecipado. “É colocar PIB extra num ano, e tirar do ano seguinte.”

Diogo Castro e Silva, diretor executivo do Banco Caixa Geral Brasil, diz que a colocação de um prazo para muitas obras que vêm sendo postergadas pelo País é um dos principais benefícios. “A Copa e as Olimpíadas colocam um limite para projetos absolutamente necessários e que vêm sendo adiados, como a reforma dos aeroportos.”

Trocando estádios e hoteis por infraestrutura

Apesar de fazerem o alerta, os especialistas se dizem otimistas com os efeitos gerais das obras para o País. De todos, os projetos ligados à melhoria da infraestrutura do Brasil são os mais esperados. “Essa é a parte boa dos eventos: a possibilidade de incrementar o sistema de transportes”, diz Gonçalves, do Fator. Para ele, uma obra que custa relativamente pouco e pode trazer dividendos aos investidores é a ampliação de portos, para atracamento de navios.

Castro e Silva, do Banco Caixa Geral, também destaca o incremento do fluxo de turismo para o País após os eventos esportivos. “Ajuda a melhorar a imagem do Brasil no exterior e a criar um fluxo mais consistente de visitantes no futuro.”

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.