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Nos próximos dois meses, as emissões de debêntures devem crescer de forma expressiva

Nos próximos dois meses, as emissões de debêntures devem crescer de forma expressiva. Empresas que querem se capitalizar para investir, realizar aquisições ou alongar dívidas já consultam bancos especializados. A perspectiva é, no entanto, que as empresas obtenham recursos por prazos mais curtos e maiores custos do que os verificados antes da crise financeira, repetindo o padrão observado entre o final do ano passado e início deste ano.

Segundo especialistas, as próximas emissões de debêntures serão concentradas em companhias do setor elétrico, de telecomunicações e concessionárias de rodovias. "O processo de lançamento dessas operações demora entre cinquenta e sessenta dias, a partir da consulta realizada pela empresa ao banco que vai estruturá-la. Assim, é possível dizer que em dois meses haverá muitas novidades", conta o diretor do braço de investimento do Bradesco, Fábio Mentone.

Neste ano, o volume total de captações por meio de debêntures superou R$ 5,4 bilhões, de acordo com dados preliminares da Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima). O volume é considerado pequeno quando se considera o fato de que, tradicionalmente, as empresas costumam recorrer mais ao mercado de capitais no início do ano - embora o ano de 2009 tenha sido exceção.

Desta vez, segundo o diretor de credit markets do Banco Santander, Eduardo Borges, as empresas puseram o pé no freio para planejar seus investimentos e a necessidade de capital, além de avaliar a evolução do mercado. Afinal, havia a dúvida sobre o impacto do retorno de maiores alíquotas dos depósitos compulsórios sobre as taxas de juros. De acordo com Borges, as empresas que procuram o banco têm planos de ampliar o prazo de dívidas assumidas no período de liquidez escassa, quando as emissões não ultrapassaram o prazo de dois anos. Também há companhias com projetos de investimento e outras buscando capital para aquisições.

"O mercado local tornou-se um importante canal de crédito para empréstimos-ponte por parte de empresas que planejam aquisições", afirma. No caso de aquisições, explica, o melhor instrumento é a debênture emitida por meio da instrução 476 que, por garantir mais agilidade na captação, viabiliza o acesso ao mercado local para empréstimos ponte - o que, tradicionalmente, é realizado por meio de emissões no mercado externo.

Do volume emitido neste ano, cerca de R$ 1,3 bilhão foi baseada na instrução CVM 476 - que permite a operação sem autorização prévia da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), desde que a venda seja feita para um grupo de, no máximo, 20 investidores. Também há empresas recorrendo ao mercado para alongar as dívidas de curto prazo assumidas ao longo de 2009 - processo que deve durar todo o ano de 2010, mas certamente se esgotará no final do ano, segundo Mentone, do Bradesco.

Mas há um volume importante de investimentos, especialmente em infraestrutura, que vai gerar emissões de debêntures ao longo dos próximos meses. Segundo o superintendente de mercado de capitais do Banco Espírito Santo (BES), Ciro Giannini, o ciclo de retomada dos investimentos começou no segundo semestre do ano passado, e o mercado local deve ser uma boa opção para capitalização das empresas.

"O crescimento forte da economia motivará essas emissões e o mercado local será uma boa alternativa, porque está mais equilibrado do que lá fora", afirma. Giannini observa que, embora o mercado internacional ofereça prazos mais longos - o que, sem dúvida, é uma grande vantagem para determinados projetos de investimento -, o custo das operações é alto. E, em geral, só vale a pena para empresas com receitas em dólar, o que reduz o custo do hedge. "Para companhias com receita em reais, o mercado local de dívida tende a crescer", afirma.

Em um horizonte mais longo, ele observa que, com a perspectiva de juros básicos mais baixos - ainda que haja um ciclo de aperto monetário em curso - e de realização de superávit primário, a dívida pública, ao longo do tempo, tende a emagrecer. Isso significa que os títulos privados podem ganhar terreno junto ao investidor em relação aos papéis do Tesouro Nacional.

Retomada

A crise internacional, que secou a liquidez em todos os mercados, inclusive o brasileiro, interrompeu um momento positivo para o mercado de debêntures. As captações eram numerosas e experimentavam prazos mais longos e custos menores. O movimento foi interrompido no final de 2008 e, até agora, não há sinais de retorno ao ambiente observado no período pré-crise.

A retomada das emissões em 2009 aconteceu de forma lenta e, inicialmente, com ofertas de prazos curtos, de papéis de um ou dois anos, e spreads ainda considerados altos. Ao final do ano passado, entretanto, como reflexo do restabelecimento das condições de liquidez do sistema financeiro local, novas operações surgiram em condições melhores. O destaque, no último trimestre de 2009, foram operações de empresas do setor elétrico. Na ocasião, as emissões tiveram prazo alongado entre três e cinco anos, no caso dos papéis indexados ao CDI, os de maior liquidez.

O prazo médio das novas emissões ainda está longe dos sete anos observados no pré-crise, mas é melhor do que se observou no início do ano. No caso dos papéis atrelados ao IPCA, os preferidos pelos fundos de pensão, já há emissões entre cinco e sete anos, contra dez anos observados antes da crise. E é esse padrão que deve ser mantido nas próximas captações. "Não vamos voltar logo àqueles patamares, nem em termos de prazo nem de custo", afirma Mentone. "Mas a tendência é de uma melhora gradual", opina.

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