Diminui pressão de empresas sobre analistas de ações

Apesar da relação mais amigável, especialistas dizem que sempre haverá campanha para recomendar compra de papéis

Aline Cury Zampieri, iG São Paulo | 07/02/2012 05:43

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A relação entre analistas que recomendam ações ao público e as empresas que eles avaliam vem melhorando ao longo dos anos, mas ainda está longe de ser totalmente transparente e isenta de interesses. Segundo gestores e analistas-chefes, o amadurecimento do mercado de ações brasileiro diminuiu bastante situações que, há dez anos, chegavam a ser comuns: uma empresa pressionava tanto um analista que conseguia reverter, ou ao menos melhorar, a posição desse especialista em relação aos negócios.

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O resultado, nesses casos, transformava recomendações que deveriam ser de venda de uma determinada ação para neutro, ou um neutro para compra. Segundo especialistas, a evolução do próprio mercado brasileiro, a criação de regras de conduta e a maior fiscalização ajudaram a diminuir os problemas. Mas as relações também se abrandaram, o que diminuiu os embates diretos e as críticas mais contumazes.

Foto: Apimec Ampliar

Segundo Alexandre, da Apimec, as relações com empresas melhoraram

Reginaldo Alexandre, presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais em São Paulo (Apimec-SP), falou do eterno embate entre os especialistas e as empresas. Ele admite que muitas vezes as empresas reagem negativamente a uma recomendação de venda de suas ações, mas que o mercado está mais transparente. “Conheço vários casos de analistas que criticaram abertamente operações de empresas e não sofreram retaliações”, diz. “Fui um deles”, afirma o especialista, que já chefiou, por exemplo, a mesa de pesquisa do Itaú.

Gestores que preferiram não se identificar admitem que o mercado melhorou, mas que essa evolução veio acompanhada justamente desse “adeus às armas” de ambos os lados. “Costumava ser um faroeste”, disse um gestor, ao comentar o tom das análises de alguns especialistas antigamente. “Hoje a área de supervisão dos bancos está melhor e os analistas estão menos verborrágicos e emotivos, fazendo menos ataques pessoais, o que contribui para uma reação menos enérgica das empresas”, continuou esse profissional.

O pedido de comedimento consta inclusive do código de ética da própria Apimec. Nos princípios gerais, a associação pede aos analistas que sejam “prudentes e diligentes”. “O analista deve conduzir suas atividades com cuidado, diligência e prudência compatíveis com as expectativas do investidor e de seu empregador, dando a ambos o conforto em relação à qualidade do trabalho”, afirma o trecho. Ou seja, demonstrações mais veementes não são recomendadas.

Os especialistas atribuem a melhora também ao controle maior dos reguladores sobre o mercado após a crise de 2008. “A tendência é que o número de regras restritivas só aumente, depois das quebras e fraudes vistas no mundo”, afirmou um profissional.

Outro sinal de que o mercado amadureceu, diz um especialista, é o status de alguns profissionais e a própria exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que pede curso profissionalizante e assinatura do analista atestando que aquelas opiniões são apenas dele e são fidedignas. Ou seja, com maior responsabilidade sobre seus ombros, os profissionais passaram a defender mais suas posições. “Sei de bancos que perderam negócios com empresas por causa de uma posição contrária de um analista”, contou um outro gestor. Além disso, muitos desses analistas fizeram seus nomes no mercado, e lutam para não manchá-los.

“Já ouvi muitas histórias de empresas ligando e xingando o analista. Dependendo do responsável pelas relações com investidores há pressão sim”, diz um especialista. “Mas a situação piora se a recomendação destoa muito da média do mercado”, diz. “Quando todo mundo está vendendo, fica difícil a empresa conseguir pressionar um analista.”

Para esse especialista, as maiores pressões se concentram agora nas casas que participam de ofertas iniciais de ações de empresas e esperam conseguir participar de novas emissões dessas companhias. Nesses casos, as avaliações podem ficar mais positivas. “Pressão para que o analista recomende compra sempre vai existir.”

Segundo Adriane de Almeida, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), o mercado precisa trabalhar em medidas que garantam cada vez mais a independência dos analistas. Tentar desvincular remunerações extras de trabalhos feitos para as empresas é uma delas.

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