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Economistas dizem que investidor estrangeiro tira dinheiro das ações para aplicar nos EUA, mas descartam contaminação do Brasil

O risco de insolvência da Grécia, apesar do pacote de ajuda de 110 bilhões de euros anunciado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelos integrantes da Zona do Euro, que ameaça se espalhar por outros países do Sul da Europa, está abatendo a Bolsa de Valores. Mas não vai contaminar a economia brasileira, segundo economistas de bancos e corretoras. “Dizer que as consequências da crise na Europa são reais para as nossas empresas e para a nossa economia é exagero”, avalia Wagner Salaverry, sócio-diretor da corretora Geração Futuro.

Os investidores estrangeiros, novamente, estão mostrando aversão ao risco. Foi assim durante os piores momentos da crise financeira mundial, com a quebra do banco norte-americano de investimento Lehman Brothers, em setembro de 2008. Foi assim em fevereiro, quando surgiram os primeiros sinais da crise grega. “No mercado financeiro, o impacto é intenso e imediato. A questão é de aversão ao risco. O mercado quer um ativo livre de risco e corre para os títulos do Tesouro Americano”, afirma Cristiano Souza, economista do banco Santander.

Apesar de a queda na Bovespa nesta semana ter assustado os investidores e indicado fuga de estrangeiros, Kelly Trentin, analista-chefe da corretora Spinelli, lembra que o saldo de capital estrangeiro na Bolsa brasileira é de R$ 1,4 bilhão no acumulado deste ano. “Não é um valor alto, mas sinaliza que o investidor externo está menos otimista. A crise na Europa tem uma influencia na Bolsa, mas não na economia”, diz ela. “Os dados da economia brasileira têm sido positivos, como a produção industrial divulgada ontem.” O IBGE informou que a produção industrial do País cresceu 18% no primeiro trimestre sobre o mesmo período do ano passado.

De acordo com o economista do Santander, os 110 bilhões de euros aprovados como ajuda à Grécia são suficientes para liquidar o serviço da dívida do país até 2012. “O risco de ‘default’ diminuiu.” O nervosismo do mercado se dá, segundo Souza, por conta da contrapartida exigida dos gregos. O governo tem de reduzir o déficit público dos 13,6% do Produto Interno Bruto (PIB) registrados no ano passado para 3%. “São quatro anos para cortar mais de 10 pontos no déficit em relação ao PIB. A expectativa é de que o pacote seja muito recessivo”, afirma o economista.

De qualquer maneira, Souza lembra que há um sentimento no mercado de que o Brasil não terá problemas com a crise européia. “Não há uma percepção de que o Brasil vá dar um calote. Os indicadores de solvência do País estão tranquilos. As reservas internacionais, por exemplo, são de US$ 240 bilhões. Mas esses movimentos fortes causam uma piora na percepção de risco”, avalia o economista. Os problemas europeus estão “dimensionados e localizados”, diferente do que ocorreu em 2008, quando a quebra do Lehman Brothers espalhou incertezas pelo mundo inteiro, complementa Salaverry, da Geração Futuro.

Oportunidade

O Ibovespa, índice referencial da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&FBovespa), caiu 3,35% ontem, voltando aos níveis de fevereiro em pontos. Hoje, o indicador passou o dia oscilando entre altas e baixas. Os investidores locais, diz Salaverry, ficam com medo de novas quedas e vendem suas ações ou não compram novas. “O investidor não está conseguindo ver esse momento como uma oportunidade”, afirma.

Ricardo Martins, gerente de pesquisas da corretora Planner, lembra que os estrangeiros que deixam a Bolsa brasileira têm corrido não só para títulos do Tesouro dos EUA, mas também para as Bolsas americanas. “O Dow Jones e o S&P500 têm alta constante desde o início do ano. Como a economia norte-americana está mostrando sinais de recuperação, os investidores vendem ações aqui para comprar lá”, afirma. Segundo Martins, os resultados que vêm sendo divulgados pelas companhias dos EUA comprovam essa recuperação. “Isso sem contar a retomada do emprego”, comenta.

Dados da consultoria Economática comprovam as informações do economista. Desde o início de janeiro até ontem, o Dow Jones, principal indicador da Bolsa de Nova York, acumula alta de 4,8%. O S&P500, outro índice referencial americano, tem valorização de 5,2%.

Para Martins, não há risco de contaminação da economia brasileira. Ele lembra que os incentivos dados pelo governo para aquecer a economia nos piores momentos da crise, como desconto no Imposto de Produtos Industrializados (IPI) e relaxamento no compulsório dos bancos, têm sido retirados e o “mercado está andando por si”. “O consumidor está seguro no emprego, com renda garantida, a inadimplência está caindo. Então ele se sente confortável em continuar comprando”, avalia.

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