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Para especialistas, juros, inadimplência e saturação do mercado contribuem para redução do ritmo

Tendência é de acomodação da taxa de expansão do crédito, diz Solimeo
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Tendência é de acomodação da taxa de expansão do crédito, diz Solimeo
O ritmo de concessão de crédito no Brasil vai diminuir no segundo semestre deste ano. Depois de passar por restrições desde 2008, quando estourou a crise financeira mundial, a concessão de empréstimos no País entrou num forte compasso, aproveitando sobretudo a nova capacidade de compra das classes C e D. Até o final do ano, no entanto, a tendência é de acomodação do ritmo, dizem os especialistas.

“Apesar da alta robusta em volumes emprestados, as condições de crédito apresentaram os primeiros sinais de estabilização na tendência de melhora observada desde o final da crise”, diz o Itaú Unibanco em relatório sobre os últimos números do setor, de maio. “Acreditamos que, com o ciclo de alta da taxa de juros por parte do Banco Central, esse processo deva se intensificar ao longo dos próximos meses, reduzindo, inclusive, o ritmo do crescimento dos empréstimos.”

O volume total de crédito atingiu R$ 1,5 trilhão em maio de 2010, com alta de 2,1% em relação ao mês anterior e 19% sobre igual mês de 2009. O crescimento interanual da carteira de crédito foi de 27,8% em 2007, 31,1% em 2008 e 15,2% no ano passado. Para especialistas, o aumento da taxa básica de juros da economia é apenas um dos fatores que vão contribuir para a diminuição do crescimento.

Na Serasa, por exemplo, o Indicador de Perspectiva do Crédito ao Consumidor de maio caiu 1,5%, a quinta queda mensal consecutiva. A empresa diz que, além do atual ciclo de aperto monetário, contribuem para uma aceleração menor os cortes orçamentários para gerar superávit primário do setor público e a retirada dos estímulos fiscais às aquisições de bens duráveis.

Sinais de saturação na tomada de empréstimo

A própria saturação dos consumidores também dá sinais de vida. “Há uma tendência de acomodação da taxa de expansão, e entre as principais razões está o aumento do nível de endividamento do consumidor”, diz Marcel Solimeo, superintendente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Em seu relatório, o Santander lembra que a inadimplência em maio subiu levemente, de 5,07% para 5,14%, após 8 meses de queda. Já a taxa de juros da carteira com recursos livres voltou a subir (de 34,3% para 34,9%), a segunda alta consecutiva.

Solimeo conta que o ritmo de novos pedidos por crédito já está caindo. De 2007 a 2009 entraram 30 milhões de novos usuários de crédito no sistema. No total, são 112 milhões no País. “De um lado, houve saturação nos pedidos de quem entrou no sistema e veio com grande necessidade. De outro, quem concede crédito passou a ficar mais seletivo.”

Fernando Manfio, sócio diretor da consultoria de gestão de risco Witrisk, acrescenta que a diminuição do ritmo é normal, já que a forte expansão ocorreu após um período de restrição, puxado pela crise internacional. “Quando o mercado se reabre, as pessoas voltam a consumir, até que um ponto de saturação é atingido”, afirma.

Em relatório, o Itaú lembra que o crédito à pessoa física apresentou uma estabilização da melhora das condições, com o spread subindo a 29,6%, ante 29,5% em abril. O crédito para empresas também apresentou leve deterioração nas condições, com alta de spread (de 16,8% para 16,9%).

Crédito direcionado afeta ritmo

O maior cuidado dos bancos privados na concessão de empréstimos pode ser visto no tipo de crédito dominante atualmente. Empréstimos direcionados e com desconto em folha (consignado), são os mais comuns. “O crescimento se deu em linhas com garantia, como veículos e imobiliário, o que mostra que os bancos estão mais conservadores e buscam diminuir seu risco”, diz o superintendente da ACSP.

Em relatório, o Santander lembra que o aumento nas concessões em maio voltou a ser puxado pelo crédito direcionado, principalmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). Ou seja, os pedidos livres por empréstimos tiveram menos peso dessa vez.

Segundo os economistas da Serasa Experian, esse aumento da participação do crédito com recursos direcionados às empresas tem deslocado a demanda das companhias para esse tipo de modalidade, em detrimento das fontes com recursos livres da rede bancária doméstica. Na opinião deles, o cenário fará com que as concessões de crédito às empresas com recursos livres continuem abaixo de seu equilíbrio de longo prazo, dificilmente retornando a este nível antes do primeiro trimestre de 2011.


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