Passada a crise que atingiu o Brasil de forma mais amena que o restante do mundo, o País se depara com uma nova realidade. Se no ano passado os investimentos minguaram e atingiram 16,7% em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), o menor índice desde 2006, o quadro promete ser bem diferente de agora em diante.

Cálculos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Departamento de Pesquisa do Bradesco e da Casa Civil da Presidência da República apontam que o Brasil deverá receber, nos próximos quatro anos, cerca de R$ 800 bilhões em novos investimentos, contando os privados e os que estão sob o rol do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. É um patamar que, caso concretizado, deve levar o índice de investimento para 20% do PIB.

Por um lado, o número é animador. Significa que a confiança dos empresários na economia é sólida e que mais empregos e renda deverão ser gerados. Mas também há outro aspecto que poucas vezes é levado em consideração.

Para financiar projetos da magnitude de refinarias, siderúrgicas e plantas industriais, o empresariado acaba recorrendo ao BNDES, praticamente o único emprestador nacional de longo prazo. Diante de números como esses, técnicos do Tesouro Nacional começam a duvidar da capacidade de empréstimo do banco estatal. Ainda mais com o mercado projetando juros mais altos no futuro próximo, o que inviabiliza empréstimos privados e coloca o BNDES como grande atrativo dos empresários por conta de seus juros mais baixos.

Pelas contas do Tesouro, se a escalada dos juros bater em 11,25% no final do ano, como prevê o mercado no relatório Focus, do Banco Central, fatalmente o BNDES baterá na porta do cofre da União. E isso porque no ano passado o banco conseguiu um aporte de R$ 180 bilhões para o biênio 2009/2010.

"Não há como garantir que o BNDES tenha recursos em caixa se todo o empresariado se voltar ao banco num cenário de Selic alta demais", afirma um funcionário do Ministério da Fazenda. "É uma operação simples. Com juros altos, o banco é quase obrigado a financiar mais barato. E isso tem um custo para o País." O BNDES, por sua vez, não quis comentar a possibilidade de um novo aporte de recursos.

Investimento crescente


O movimento de retomada do investimento começou a ser sentido no último trimestre do ano passado, quando a formação bruta de capital fixo, como os economistas tratam os investimentos realizados diretamente na indústria e em infraestrutura, cresceu 6,6% em relação ao trimestre anterior. O resultado foi bem acima do PIB registrado no período, que alcançou 2%.

"Estamos certamente retomando os investimentos, mas ainda não vamos chegar ao nível de proporção ao PIB necessário para crescer rápido", avalia o economista Regis Bonelli, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. "Chegar perto de 19% ao fim deste ano já será um avanço enorme."

Apenas esse resultado demandaria um investimento direto na economia de cerca de R$ 597,1 bilhões, levando em consideração o PIB gerado em 2009, de R$ 3,1 trilhão. Um indicativo de que esse número pode ser alcançado é a divulgação de uma sondagem feita pelo Departamento de Pesquisa do Bradesco com diversas empresas privadas. Ela aponta investimentos de R$ 96,8 bilhões anunciados apenas entre janeiro e fevereiro deste ano.

O grande problema é que o BNDES acaba sendo o único recurso dessas empresas na hora de um aperto monetário. Mas é ainda mais a salvação de empresas estatais, como a Petrobras, que consomem bilhões dos empréstimos. Apenas no ano passado, a petrolífera retirou do caixa do banco R$ 25 bilhões e deixou reservado outros R$ 20 bilhões para investimentos no pré-sal.

"O maior concorrente das empresas privadas junto ao BNDES é o próprio governo", afirma Armando Castelar Pinheiro, analista da Gávea Investimentos. "E não há qualquer sinal de alguém substituir esse papel de financiador enquanto for mais atrativo aos bancos privados investir mais em títulos do Tesouro que em empréstimos ao setor privado."

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