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As autoridades me ignoraram

Harry Markopolos, o homem que desvendou as fraudes cometidas por Madoff nos EUA, lança livro contando detalhes da investigação

Gustavo Poloni, enviado especial a São José dos Campos |

Harry Markopolos passou anos preocupado com sua segurança pessoal. Antes de entrar no carro, costumava checar as rodas a procura de bombas e sempre dormia com uma arma perto da sua cama. O motivo para a paranoia? Medo de ser morto por Bernard Madoff, o mega investidor americano preso no fim de 2008 por fraudar o sistema financeiro dos Estados Unidos em US$ 65 bilhões.

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Harry Markopolos, o homem que desvendou o esquema Madoff
Filho de gregos e gênio da matemática, Markopolos era gerente de um fundo de investimento em 2000 quando pediu para um funcionário tentar descobrir o segredo dos lucrativos negócios de Madoff. “Quando me mostraram o catálogo com os serviços desconfiei na hora de que se tratava de uma fraude”, disse. Durante oito anos, ele e sua equipe trabalharam em casa para investigar o caso e denunciaram sem sucesso Madoff para as autoridades norte-americanas.

No início de março, Markopolos lançou nos Estados Unidos o livro No One Would Listen (Ninguém Escutava, em tradução livre, sem data para chegar ao Brasil), no qual conta detalhes da investigação e de como as autoridades norte-americanas ignoraram seus sinais de alerta. “É uma história trágica, milhares de pessoas tiveram suas vidas destruídas”, afirma. De um hotel em Nova York, Markopolos falou ao iG sobre sua história. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

iG: Por que o senhor começou a olhar com mais atenção para os fundos de investimentos administrados por Bernard Madoff?
Harry Markopolos: Em 2000 eu trabalhava como gerente de um fundo de investimento e ele era nosso concorrente. Certo dia, pedi para que alguém fosse até a empresa do Madoff para ver como eles estavam ganhando tanto dinheiro. Quando ela voltou com os catálogos de investimentos deles, olhei e falei: é uma fraude. A descrição da estratégia do negócio estava errada, os gráficos mostravam ganhos impossíveis no mundo financeiro.

iG: Em cinco minutos o senhor descobriu uma fraude que levou anos para ser desvendada pelas autoridades americanas?
Markopolos: Foram cinco minutos para desconfiar de que alguma coisa estava errada e mais quatro horas de cálculos para provar matematicamente que era uma fraude.

iG: O senhor costuma dizer que eram muitas as evidências do esquema fraudulento de Madoff. O que mais despertava a atenção?
Markopolos: O fato de o fundo ter apenas US$ 1 bilhão em ações para defender mais de US$ 50 bilhões em investimentos. Obviamente ele não poderia fazer o que dizia estar fazendo. Isso era tão óbvio que qualquer criança do ensino fundamental poderia descobrir.

iG: Se era tão simples assim, por que a SEC (entidade reguladora do mercado de capitais nos EUA) nunca descobriu a fraude?
Markopolos: Porque a SEC é dirigida por advogados que não entendem de matemática e muito menos de finanças. Para piorar, a sede do órgão está em Washington, que não é um centro financeiro. É um centro político. Eles deveriam mudar sua sede para Nova York, onde estão as empresas do mercado financeiro.

iG: Essa seria uma forma de prevenir novas fraudes. O que mais poderia ser feito?
Markopolos: Deveria haver um único órgão para regular o mercado financeiro. Hoje, são seis e eles trabalham com sistemas diferentes. É como as agências de inteligência. Antes dos atentados terroristas de 11 de setembro, o país tinha 16 agências que trabalhavam com sistemas que não conversavam entre si. Havia evidências de possíveis ataques, mas elas não eram divididas. Hoje, eles usam um único sistema e compartilham as informações. Levou muito tempo para que se chegasse a esse modelo e é a única forma para ligar os pontos. A última coisa a fazer é aplicar um teste de matemática a todos os funcionários da SEC. Quem repetir tem de ser retirado do cargo e substituído por alguém que entenda do assunto. Não adianta contratar gente que não entenda de matemática ou que seja pouco experiente. É preciso gente que enxerga uma fraude a quilômetros de distância.

iG: Quantas vezes o senhor entrou em contato com as autoridades da SEC para denunciar o esquema?
Markopolos: Inúmeras vezes, é difícil de contar. Entrei em contato em diferentes etapas da minha investigação para tentar mostrar que ele estava fraudando o mercado financeiro, que tinha clientes nos Estados Unidos, na América Latina, na Europa, na Ásia.

iG: O que eles diziam?
Markopolos: Eles me ignoravam. Nos primeiros cinco anos, me ignoraram. Em 2005, iniciaram uma investigação que durou dois anos, mas nunca foi uma investigação muito séria. Eles não davam atenção para as provas que eu tinha, acharam que o Madoff estava praticando um front runinng (prática ilegal na qual o negociador tem oportunidade de lucro em razão do conhecimento antecipado), enquanto ele tocava um esquema Ponzi (programa de investimento que oferece retorno impossível e paga os investidores com o capital trazido pelos investidores subsequentes).

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Capa do livro "No One Would Listen"
iG: Quando foi que eles começaram a lhe dar atenção?
Markopolos: Nunca deram. Até o dia em que perceberam que tudo o que eu havia dito era verdade. Quando o caso foi desvendado e o Madoff foi preso prestei depoimento no Congresso e na SEC. Minha investigação foi usada como prova do esquema Ponzi conduzido por ele.

iG: Em algum momento a SEC se desculpou?
Markopolos: Sim, algumas pessoas pediram desculpas. Não foi um pedido de desculpas oficial, mas isso já mostra que o trabalho valeu a pena. Muita gente veio falar comigo sobre a investigação. Conversei com dezenas de vítimas do esquema do Madoff.

iG: O senhor acha que o esquema teria sido descoberto se não fosse a crise financeira?
Markopolos: Não. Depois da falência do banco de investimentos Lehman Brothers e da seguradora AIG houve uma corrida dos investidores para salvar seu dinheiro. O problema é que o Madoff não tinha recursos para atender a todos. Ele soube com algumas semanas de antecedência que seu império estava para acabar. O Madoff não foi preso por causa da minha investigação ou da investigação da SEC. Foi o pânico dos investidores que levou a sua prisão.

iG: Por que pessoas bem sucedidas, bem informadas e com muito dinheiro ainda caem num esquema como esse?
Markopolos: Quando alguém se depara com um esquema Ponzi é como estar frente a frente com a mulher mais bonita do mundo. É muito atraente. Quando tem tanta gente influente investindo em algo assim, as pessoas não se preocupam em checar se os responsáveis pelo fundo são corretos. Elas acham que alguém já fez isso por você. Sem falar que a reputação do Madoff era ótima, ele foi presidente do conselho da Nasdaq, tinha um dos fundos de investimentos mais poderosos do mundo. As pessoas sabiam que ele era um homem rico e achavam que ele não precisaria roubar para fazer dinheiro. Ninguém jamais desconfiaria de alguma coisa errada.

iG: O senhor acredita que existam outros Madoffs soltos por aí?
Markopolos: Você sempre terá esquemas Ponzi, mas não desse tamanho. O Madoff montou um esquema que funcionava em mais de 40 países, contava com 399 empresas que traziam clientes para o fundo. Era uma conspiração global. Roubar o dinheiro nessa escala, de tantas pessoas, é uma aberração. Tenho certeza de que pode acontecer de novo. Recordes foram feitos para serem quebrados. Mas se um dia me deparar com uma investigação tão grande quanto a do Madoff, terei certeza de que alguma coisa está muito errada neste país.

Seu primeiro trabalho de investigação foi uma fraude na rede de restaurantes da família. Como ela ajudou a pegar o Madoff?
Markopolos: Quando você investiga as fraudes e os crimes você passa a entender como funciona a mente de um criminoso. Percebe que já viu aquela situação outras vezes antes, apenas num outro nível.

iG: Em seu livro, o senhor diz que usou muita matemática durante a investigação, mas no colégio tirava notas ruins na matéria. Como aconteceu essa mudança?
Markopolos: Na sétima e oitava séries, eu era muito ruim em matemática. A coisa começou a mudar no ensino médio, quando tive ótimos professores. Foram eles que me mostraram a beleza da matemática, que fizeram com que eu me apaixonasse por ela.

iG: O senhor ainda se considera um nerd da matemática?
Markopolos: Não mais. Quando se fica muito tempo sem usar a matemática, ela enferruja. Mas durante a época da investigação eu era. A matemática é um dom que tenho.

iG: O senhor costuma dizer que números podem contar histórias. Que tipo de histórias?
Markopolos: Histórias grandiosas, histórias de fraudes. A matemática tem uma elegância para contar qualquer tipo de história. Uma pessoa pode mentir para você, mas os números não. Eles têm um compromisso com a verdade.

iG: Como o senhor se sente agora que o Madoff está preso?
Markopolos: Não me sinto bem. Queria ter conseguido detê-lo quando o esquema ainda estava abaixo de US$ 10 bilhões. É uma história trágica para muita gente. O problema do livro é que todo mundo sabe como ele termina. E não é um final feliz.
 

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