BM&FBovespa está para assinar acordo para troca de tecnologia com Bolsa de Santiago, ampliando movimento de internacionalização

A Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&FBovespa) está para assinar um acordo com a Bolsa de Santiago, no Chile, para troca de tecnologia e listagem futura de Brazilian Depositary Receipts (BDRs), em mais um passo do mercado brasileiro rumo à integração internacional, que se tornou patente com o aporte de US$ 620 milhões para elevar a participação no CME Group, a maior Bolsa do mundo. BDRs são recibos de ações de companhias de outros países negociados no Brasil. O diretor-presidente da Bolsa brasileira, Edemir Pinto, conta que o plano é levar tecnologia e organização ao mercado chileno. “O acordo também será replicado no Peru e na Colômbia”, afirma. Essas três Bolsas já estão em processo de interligação de seus negócios.

Pregão na Bolsa de Nova York, que comprou a Euronext e passou a deter várias Bolsas na Europa
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Pregão na Bolsa de Nova York, que comprou a Euronext e passou a deter várias Bolsas na Europa
Integrar operações foi uma alternativa ao desencadeamento de um processo de compras. A BM&FBovespa gera grandes volumes de caixa. No final do ano passado tinha R$ 3 bilhões no cofre. Poderia se lançar em ofertas por outras Bolsas, mas a avaliação de sua cúpula é que não há mercados atrativos na América Latina. “Não há nada para comprar. Os mercados do Chile, Argentina, Peru e Colômbia são pequenos. Precisam de tecnologia, de arcabouço regulatório, de sistemas de gerenciamento de riscos e de estrutura depositária. Os grandes volumes são negociados no México”, avalia Edemir.

O mercado brasileiro representa 80% do total negociado em ações em toda a América Latina, enquanto o México fica com 12%. Em derivativos financeiros e agrícolas, a Bolsa brasileira movimenta 90% e a mexicana, 7%. E a Bolsa do México já está na mira da brasileira. Edemir conta que, durante as negociações que culminaram em um acordo com o CME Group, assinado em fevereiro, os donos da Bolsa de Chicago também tratavam de um investimento de 2% em uma subsidiária da Bolsa mexicana, que não opera ações. Como as tratativas entre brasileiros e americanos avançavam, o CME Group propôs aos executivos brasileiros 50% de participação nessa operação. “Eles já incluíram a BM&FBovespa no texto do acordo. Hoje, analisamos o assunto, já aprovado em assembléia de acionistas.”

Participação recíproca

O acerto com o CME Group foi anunciado em 11 de fevereiro. Com ele, a participação da Bolsa brasileira no CME passou de 1,5% do capital para 5%, a mesma participação que este tem na BM&FBovespa. Tem um prazo de 15 anos e representa um investimento total dos brasileiros de US$ 1 bilhão.

Segundo Edemir, o aporte na subsidiária da Bolsa do México significa um aporte de US$ 30 milhões. Mas o interesse da Bolsa brasileira é maior, em todo o mercado de ações mexicano. “Isso nos dará um novo grupo de Bolsas para comandar o jogo na próxima década”, explica. “O sentido é fortalecer o Cone Sul.”

Nesse mesmo sentido, a Bolsa lidera um movimento com parceria da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que acabou na criação da Brasil Investimentos & Negócios (Brain), uma entidade que tem o objetivo de transformar o Brasil em um centro internacional de negócios, que funcione como um portão para toda a América Latina.

Paulo Oliveira, presidente da Brain, afirma que a integração dos mercados latinos deve passar pela maturação regulatória. “É preciso um mapeamento, país a país, e traçarmos um desenho do arcabouço regulatório. É necessário um estudo envolvendo os Bancos Centrais e as Comissões de Valores Mobiliários para chegarmos a um mercado unificado”, afirma ele.

Oliveira ressalta que o Brasil tem boas relações com a Argentina, mas diz que os vizinhos estão atrasados em termos de integração local. Atualmente, está sendo realizada a integração das Bolsas de Rosário (commodities) e Buenos Aires. “Eles saíram do segundo lugar na América Latina em termos de mercado financeiro para o sexto em dez anos. Agora, passam por uma retomada.”

União dentro de casa

Esse processo de internacionalização só foi possível após a união da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) com a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Anunciado em 25 de março de 2008, o acordo traduziu-se no fortalecimento do mercado brasileiro e só foi possível após um processo de desmutualização de cada uma das Bolsas, sua transformação em empresas e a posterior abertura de capital. Em outubro de 2007, a Bovespa levantou R$ 6,6 bilhões com sua oferta inicial de ações (IPO na sigla em inglês). Em novembro do mesmo ano, foi a vez da BM&F arrecadar quase R$ 6 bilhões com a venda de suas ações no mercado.

Operadores na Bolsa de Chicago, que pertence ao CME Group, o maior grupo de Bolsas do mundo
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Operadores na Bolsa de Chicago, que pertence ao CME Group, o maior grupo de Bolsas do mundo
O fenômeno de integração não é novo. Em 2006, em uma disputa acirrada com a Bolsa de Valores de Frankfurt que durou meses, a Bolsa de Nova York (Nyse) arrematou a compra da Euronext, empresa que administrava as Bolsas de Amsterdã, Bruxelas, Paris e Lisboa, numa oferta de 10,9 bilhões de euros, em ações e dinheiro. Com a operação, criou a Nyse Euronext, grupo que representa um terço dos negócios com ações em todo o mundo. A Nasdaq, principal rival da Nyse no mercado americano, tentou comprar a Bolsa de Londres na mesma época em uma oferta hostil, mas não teve sucesso, pois um movimento de acionistas barrou o plano dos americanos.

O CME Group teve mais sucesso. Dono da Bolsa de Chicago, o CME partiu para um processo agressivo de compras em 2007 e já levou a Bolsa Mercantil de Nova York (Nymex, onde são negociados os contratos de petróleo nos EUA), a Comex (que comercializa commodities) e a Chicago Board of Trade (CBOT), o mercado de produtos agrícolas. Tornou-se a maior Bolsa do mundo, com valor de mercado de cerca de US$ 20 bilhões.

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