Alta na taxa básica de juros pode ser vantajosa para setor financeiro

Por Bárbara Ladeia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Apesar de dificultar o acesso ao crédito, política monetária do Banco Central visa segurar a alta do dólar - e faz a felicidade de quem capta recursos externos ou investe na renda fixa

Agência Brasil
As reuniões do Copom são fechadas e somente os diretores do BC participam

Foi realizada nesta quarta-feira (28) mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). O reajuste da taxa básica de juros para 9%, dada como certa pelo mercado, foi confirmada.

Esta foi a quarta elevação consecutiva da Selic, taxa básica de juros que baliza rendimento, investimentos e crédito no país. A medida é mais uma das tentativas do governo de controlar a valorização do dólar frente ao real, o que tem empurrado os preços para uma taxa de inflação fora das metas estabelecidas por Brasília.

A cada alta nos juros, a reclamação no setor produtivo é geral. No entanto, além dos investidores em renda fixa, há quem tire vantagem —ainda que com parcimônia— dos ciclos de alta na taxa básica de juros.

Trata-se das instituições financeiras, as quais se beneficiam com o aumento do custo do dinheiro. Pedro Rossi, professor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON) da Unicamp, destaca um momento especialmente positivo para os bancos de investimento, que captam recursos com repasses externos e venda de cotas de fundos.

Esse tipo de instituição é uma das principais beneficiadas de um cenário suficientemente sedutor para o investidor estrangeiro —que mitiga o risco investindo em aplicações atreladas à taxa básica de juros, que por aqui rendem muito mais que no restante do mundo. “Com juros mais altos, nos tornamos mais atraentes. Especialmente em tempos de crise nos Estados Unidos e na Europa, onde os juros são mais baixos e ainda não há estabilidade econômica”, afirma Rossi.

O especialista destaca que os bancos comerciais, por sua vez, já não saem em tamanha vantagem. Isso porque o aumento nos juros se torna um importante impeditivo para a tomada de crédito, o que resulta em um encolhimento na carteira de serviços prestados pela instituição. A amplitude da base de clientes, no entanto, garante o ganho “na margem”, junto com as operações de captação de investidor estrangeiro.

Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), lembra, no entanto, que a maior rentabilidade das instituições de crédito está na concessão de crédito com alto risco – o que naturalmente é mais frequente na relação direta com o consumidor final. “O mercado forma os preços conforme o risco”, afirma.

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Alta na Selic visa controlar rally do dólar

Entre as instituições financeiras, quem quer evitar o risco busca ser credor do governo e, segundo Tingas, “os bancos estão com apetite”. “A maior dificuldade está em encontrar clientes físicos ou jurídicos com capacidade de honrar os pagamentos.” Em cenários de ampliação da inadimplência, o cuidado deverá ser redobrado.

Lá e cá – ao mesmo tempo

Nem mesmo o setor produtivo é unânime. Ao passo que a maior parte das indústrias, por exemplo, reclamam do crédito caro, há aquelas que se beneficiam dessa taxa de juros mais elevada.

O segredo está no braço forte no lado financeiro. “Algumas empresas trabalham nas duas pontas, então elas ganham dinheiro com as suas operações no setor financeiro, onde os juros são favoráveis”, explica Rossi.

Para empresas que não têm essa estratégia, alta da Selic não é uma boa nova. “Para o setor produtivo, ao contrário, os juros são custos, o que naturalmente faz com que as empresas defendam e pressionem pela redução, invariavelmente”, observa.

Sob pressões de ambos os lados, o debate resvala na esfera política, o que Otto Nogami, gestor de fundos de investimento e professor do Insper, considera um erro. “Daí a necessidade de um Banco Central independente, que não sofra esse tipo de interferência”, diz.

Para ele, o empresário evita assumir riscos e cobra do governo uma postura “paternalista” do setor financeiro. “Mesmo quando a taxa de juros estava a 7,25% ao ano, não havia grandes investimentos do setor produtivo”, afirma. “À medida que o empresariado também assume riscos, a taxa de juros tende a ficar menos impeditiva.”

Mal necessário

Nogami defende, no entanto, que a política aplicada pelo Banco Central é um importante termômetro da capacidade de produção do País. “Viemos estimulando o consumo beneficiando o sistema creditício nos últimos tempos. Uma alta na taxa de juros mostra que esta na hora de dar uma pausa nessa onda de estímulos”, afirma. “Do ponto de vista estritamente monetário, subir a taxa de juros tira moeda de circulação, então não deixa de ser uma componente recessiva”, explica.

Para ele, o objetivo central da política é pressionar o dólar, que já subiu mais de 15% desde maio —a despeito de todas as interferências diárias no mercado de câmbio.

A iniciativa tenderá a controlar os preços, juntamente com a restrição do crédito. Nogami destaca, no entanto, que a estratégia é paliativa —para o longo prazo o melhor desempenho estaria na criação de políticas de estímulo ao micro e médio empresário, que é o “esteio da economia”. “Essa condução acaba privilegiando o capital estrangeiro.”

Para o exportador, mais é menos

A partir do enfraquecimento do dólar, ganham as empresas que importam componentes e matérias-primas. Rogério César de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), acredita que uma retração do dólar só melhora a competitividade do produto nacional quando o importado é apenas um elemento do processo produtivo.

Entre as exportadoras, ganham as empresas que agregam valor aos elementos importados —naturalmente, perdem as companhias do setor de commodities, onde o valor agregado ao produto é mínimo. “É o conflito de escolha da economia”, afirma.

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Fonte: Banco Central




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