Renovado, Indusval aposta em renda fixa e agronegócio

Após cortar R$ 800 milhões de crédito de alto risco, banco quer alavancar expertise e rentabilizar produtos

Léa De Luca - Brasil Econômico |

Fundado há exatos 45 anos como uma corretora de valores, o Banco Indusval (que ganhou o “& Partners” no ano passado, com um aporte de capital por parte de Jair Ribeiro e do fundo de private equity Warburg Pincus) está prestes a dar uma nova virada estratégica. Depois de se livrar de clientes de alto risco, para compensar a perda de rentabilidade o banco, agora com uma equipe de venda mais “tecnicamente preparada”, quer espalhar sua franquia pelo mercado (principalmente em produtos estruturados de renda fixa para clientes do agronegócio) para recuperar as margens perdidas.

Há 15 dias, a diretoria se reuniu para fazer um balanço do passado e planejamento do futuro. Ontem Ribeiro, atual co-presidente (ele divide o cargo com Luis Masagão Ribeiro, sócio desde 1971) revelou ao BRASIL ECONÔMICO o que vem pela frente. Leia a seguir os principais trechos da entrevista do inquieto empreendedor, fundador do Banco Patrimônio nos anos 1980 (comprado em 1999 pelo Chase Manhattan), da empresa de tecnologia CPM Braxis e da Sertrading:

Qual o rumo que o banco quer tomar nos próximos anos?

Considerando cumprido o primeiro ciclo de mudanças, definimos cinco pilares de crescimento e queremos, em resumo, investir em novos talentos e na eficiência dos executivos; desenvolver e aplicar tecnologias que funcionem como diferencial da nossa prestação de serviços; ampliar as receitas do banco de investimento, principalmente com a oferta de produtos estruturados de renda fixa; gerar receitas recorrentes em áreas onde somos especialistas, como a de produtos financeiros para o setor agrícola, estabelecendo franquias; e realizar algumas movimentações estratégicas, incluindo possíveis fusões, aquisições e parcerias.

O banco busca parceiros que complementem suas atividades ou que acrescentem alguma expertise? Há algum negócio em fase adiantada?

Estamos sempre avaliando propostas, mas nada está decidido — e como instituição com ações negociadas em bolsa, só podemos revelar negócios por meio de comunicado oficial ao mercado todo. Estamos também planejando algumas mudanças na corretora do grupo mas não podemos adiantar nenhum detalha ainda.

Como o Indusval pretende crescer em renda fixa?

Esta á a nova fronteira para os bancos brasileiros, como foi nos anos 1970 para as instituições americanas. Nosso foco são operações estruturadas, o “empacotamento de dívidas” sob a forma de cédulas de crédito imobiliário e rural e certificados de recebíveis, por exemplo. Já havíamos tomado essa decisão estratégica no ano passado e plantamos uma sementinha, mas sabíamos que o negócio só iria decolar quando os juros caíssem; não estávamos esperando uma queda tão rápida, mas agora que aconteceu, vamos acelerar.

O que significa estabelecer franquias?

É tirar vantagem da nossa experiência para gerar receitas recorrentes. Com a reestruturação feita no ano passado, mudamos de foco, passando a atuar com empresas com faturamento mais alto (de R$ 400 milhões a R$ 2 bilhões anuais) do que antes, quando o banco era especializado em “low middle market”. Esse segmento é muito rentável, salvo ciclos econômicos recessivos. A troca significou menos riscos mas também margens menores. Com isso, precisamos encontrar um novo jeito de ganhar dinheiro, e escolhemos incrementar a distribuição de produtos e foco em setores. Um deles, onde temos larga experiência desde o tempo em que o Indusval era uma corretora de mercadorias, é o agronegócio. Hoje, 30% da nossa carteira de empréstimos (R$ 2,8 bilhões em junho, último dado disponível) é para o setor agrícola (incluindo indústria de alimentos, e temos espaço para crescer mais. E desses 18%, R$ 400 milhões são em Cédula de Produto Rural (CPR). Com isso, temos lastro para emitir Letras de Crédito Agrícola (LCA), que rendem para os investidores 95% do CDI, já que são isentas de imposto. Assim, pagamos menos para captar.

Quais foram os principais frutos que o banco colheu nesse ano após a reestruturação?

A mudança de foco reduziu o risco das operações o que resultou em um upgrade na classificação dada pela agência Standard & Poor´s no final do ano passado, por exemplo. Apesar da situação mais difícil para os bancos médios e do aperto da liquidez, conseguimos passar bem esse período exatamente por conta dessa decisão de buscar ativos de maior qualidade (eliminamos da nossa carteira cerca de R$ 800 milhões em créditos de liquidação duvidosa). Temos capital e muito espaço para ampliar os empréstimos, mesmo depois do aumento de 35% registrado entre julho do ano passado e junho último.É o que falta para melhorar a rentabilidade, que está baixa exatamente pelo nosso excesso de liquidez.

Depois de cinco anos na bolsa, o Indusval ainda acha que vale a pena?

Sim, ainda é uma forma de captar dinheiro mais barato. Ainda vale a pena.

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