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Fundo de R$ 4 bilhões pode ter escondido fraude no Cruzeiro do Sul

FDIC BCS Multicred, que tem como cotista o próprio banco, além de dois fundos da XP Investimentos, tem porte para ter camuflado as inconsistências contábeis do banco

Olivia Alonso e Danielle Brant - iG São Paulo |

Os problemas contábeis encontrados nos balanços do banco Cruzeiro do Sul no início de junho podem estar no Fundo de Direito Creditório (FDIC) BCS Multicred. O fundo tinha patrimônio de R$ 4,052 bilhões em março deste ano, sendo que, deste total, 86% eram cotas detidas pelo próprio Cruzeiro do Sul. Caso o rombo esteja mesmo em um FDIC e tenha sido mesmo de R$ 1,3 bilhão, ou de um montante superior, este é o fundo mais provável de ter sido usado para supostas manobras fraudulentas do banco, segundo fontes consultadas pelo iG. Nem o Banco Central, nem o Cruzeiro do Sul, apesar de procurados, informam a origem do problema.

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Porém, o Cruzeiro do Sul informou logo após a intervenção, em coletiva de imprensa, que as inconsistências contábeis encontradas em seus números estavam em uma carteira detida pelo próprio banco e que não afetaria investidores. As maiores suspeitas do mercado são de que o problema esteja em FDICs. Além do FDIC BCS Multicred, a instituição também é cotista de outros FDICs. No entanto, o outro fundo que comportaria um rombo de R$ 1,3 bilhão – ou superior a isto – seria o FIDC FACB, criado pelo FGC em 2010 para prevenir eventuais problemas de liquidez do banco e, portanto, muito mais improvável de ter sido usado para supostas fraudes.

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Os FDIcs são fundos que investem em créditos a receber, ou seja, compram o direito de receber recursos devidos por um credor. Os FDICs ganham quando o banco ou financeira que repassa o crédito ao fundo recebe um pouco menos do que o fundo receberá do devedor na data esperada. Esse diferencial será o ganho do fundo. No caso do Cruzeiro do Sul, uma das hipóteses é que o próprio banco tenha repassado créditos ao fundo, não necessariamente de qualidade ruim, cobrando um valor superior ao que o fundo deveria receber do devedor. Como os cotistas são do próprio banco, teriam ficado de acordo.

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Dos R$ 4,052 bilhões de patrimônio do fundo, R$ 3,478 bilhões são cotas subordinadas do Cruzeiro do Sul, que rendem ganhos maiores, mas são as primeiras a ter prejuízo no caso de problemas. Os restantes R$ 570 milhões são detidos em parte pelo fundo XP Investor FI Renda Fixa Crédito Privado Longo Prazo, gerido pela XP Investimentos e administrado pelo BNY Mellon, e pelo fundo ELC FI em Cotas de Fundos de Investimento Multimercado, gerido pela XP Investimentos e administrado pelo BTG Pacutal.

O primeiro fundo, XP Investor FI, tem o equivalente a 5,2% de seu patrimônio total em cotas do FDIC BCS Multicred. Procurada pelo iG, a XP Investimentos informou que já deu início ao procedimento de zeragem de sua participação do fundo, mesmo sem a comprovação de irregularidades em sua carteira. O fundo ELC FI, também gerido pela XP Investimentos, tem 4,9% de seu capital total no FDIC do Cruzeiro do Sul, mas a gestora não quis falar sobre este produto, afirmando que se trata de um fundo exclusivo. Ainda é possível que o fundo tenha outros cotistas, mas quando são pessoas físicas ou jurídicas que não sejam produtos de investimentos, o Cruzeiro do Sul não precisa divulgar os nomes.

O Cruzeiro do Sul, que está sob controle do FGC, não comenta a possibilidade de o rombo da instituição ter sido mesmo criado a partir do FDIC BCS Multicred. Por meio de sua assessoria de imprensa, o FGC informa que somente se pronunciará em relação a qualquer assunto ligado às investigações quando a auditoria estiver concluída.

Desde 4 de junho, quando foi anunciado publicamente o problema com o banco da família Índio da Costa, o FGC assumiu as rédeas da instituição em Regime de Administração Especial Temporária (Raet) e contratou a auditoria Pricewaterhouse Coopers para ajudar na avaliação dos números do banco.

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A maioria dos FDICs do Cruzeiro do Sul, incluindo o FDIC BCS Multicred, é custodiada pelo Deutsche Bank. Segundo estabelece a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), quem faz a custódia é o responsável por verificar o lastro dos fundos, tarefa que o banco alemão costumava terceirizar para a KPMG. Em geral, a auditoria faz isso de três em três meses. No entanto, é possível que a auditoria não tenha identificado que a compra dos créditos estivesse sendo desvantajosa para o fundo e, ao mesmo tempo, vantajosa para o banco, segundo Valerio Magarra, especialista em FDICs da ASK Renda Certa. “Em casos assim, os auditores e custodiantes podem não conseguir identificar os problemas, uma vez que cumprem o regulamento dos fundos, que não exige esse tipo de avaliação,” diz Magarra.

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