SÃO PAULO - Os dados internos apontando para arrefecimento maior da inflação e leve retração das vendas no varejo não tiveram impacto sobre a formação da curva de juros futuros nesta terça-feira. Os vencimentos longos, os mais negociados, encerraram o dia apontando para cima, refletindo a instabilidade externa e a conseqüente aversão ao risco.

Ao final do pregão na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM & F), o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2010, o mais negociado hoje, fechou estável a 14,63% ao ano. O vencimento janeiro 2011 teve valorização de 0,09 ponto, apontando 14,54%, e Janeiro 2012 apontava 14,37%, alta de 0,08 ponto.

Entre os contratos curtos, o vencimento para outubro de 2008 caiu 0,03 ponto, para R$ 13,58%. Novembro 2008 fechou estável a 13,64%. Dezembro de 2008 subiu 0,01 ponto para 13,83%, e o DI para janeiro de 2009 ganhou 0,02 ponto, fechando a 14,01% ao ano.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 443.365 contratos, equivalentes a R$ 36,58 bilhões (US$ 20,18 bilhões). O vencimento de janeiro de 2010 foi o mais negociado, com 192.900 contratos, equivalentes a R$ 16,16 bilhões (US$ 8,92 bilhões).

Segundo o sócio da consultoria Global Financial Advisor, Miguel Daoud, o aumento das taxas longas continua refletindo a redução na oferta de recursos no mercado. Ou seja, com o cenário de maior incerteza os agentes que estão dispostos a empresas exigem um prêmio maior.

Outro ponto levantado pelo especialista, é que a situação do Brasil dentro do atual ambiente de crise não é tão boa assim como "vendem" os membros do governo. Segundo Daoud, em termos de correção da bolsa de valores, alta nos prêmios de risco e desvalorização da moeda, o Brasil sofre tanto quanto ou mais que outros emergentes.

Para o especialista, o governo deveria estar estudando medidas para proteger a economia e reduzir gastos ao invés de tentar contornar a situação só com discursos, pois a desalavancagem mundial será de longa duração.

Voltando para o dia-a-dia, as curvas de juros também refletiram a reação ambígua dos mercados à decisão do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, que optou pela manutenção da taxa básica de juros em 2% ao ano.

Em um primeiro momento, a reação foi pessimista, com queda nas bolsas aqui e em Wall Street, e os DIs batendo nas máximas, pois a expectativa dos agentes era de afrouxamento monetário como resposta ao agravamento da crise financeira.

Mas poucos minutos depois, a percepção já era outra, completamente oposta, com o Ibovespa e Dow Jones firmando altas de mais de 1% e os prêmios na curva futura recuando das máximas.

Para Daoud, essa expectativa de corte de juros não deveria nem existir. Ele lembra que toda essa situação de bolha em ativos imobiliários e financeiros foi criada pelo longo período de juro baixo que vigorou nos EUA depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Foram juros reais negativos que ajudaram a criar os novos derivativos financeiros e abriram as portas para os especuladores, que exageram no otimismo.

Daoud também lembra que a situação começou a se reverter quando a taxas subiram entre 2004 e final de 2006, o que culminou com os problemas no crédito subprime, que em setembro do ano passado obrigaram o Fed a iniciar uma nova rodada de corte de juros. Basta lembrar que foi nesse período que os especuladores voltaram a ganhar, com recorde nas bolsas emergentes, petróleo a US$ 140 o barril e moedas, com exceção do dólar, supervalorizadas.

Agora, ao manter a taxa em 2%, o Fed firma uma posição bastante clara separando os especuladores do mercado. "A decisão é corretíssima. Quem especulou vai arcar com as conseqüências. Se os juros nos EUA continuassem caindo, a bolha não acabaria nunca", resume.

Um sinal dessa postura diferenciada do Fed, já foi dado essa semana, quando o BC norte-americano não ajudou o Lehman Brothers. O banco com 150 anos de atuação não encontrou comprador disposto a arcar com os problemas sem ajuda do governo e teve que pedir falência.

"(Valor Online)"

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