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SÃO PAULO - A quinta-feira foi mais um daqueles dias para se esquecer nos mercados brasileiros. A jornada que acenava com possibilidade de recuperação terminou como um dos piores nos últimos 13 meses. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou abaixo dos 52 mil pontos, o dólar subiu mais de 2,5%, retornando ao R$ 1,72, e os juros futuros subiram de forma acentuada.

O que mais impressiona, segundo os operadores, é que nenhuma notícia específica detonou essa onda de acentuada correção e conseqüente stop loss - venda pré-programada quando o ativo atinge um determinado preço.

Parece que os investidores chegaram a seu limite de notícias negativas e saíram vendendo tudo a qualquer preço. Alimentaram esse sentimento novas indicações de perda de dinamismo no mercado de trabalho norte-americano e acenos de recessão na Europa - notícias que freqüentam o noticiário econômico faz algum tempo. Também surgiram rumores de um tsunami no já deteriorado sistema financeiro norte-americano.

Em Wall Street, o fortalecimento do dólar e a queda no preço das commodities, binômio que vinha alimentado as compras recentemente, não teve influência sobre os investidores. O Dow Jones fechou o dia com perda de 2,99%, maior queda diária desde 26 de junho, e o Nasdaq recuou 3,20%.

Por aqui, as vendas se avolumaram no decorrer da manhã, com o Ibovespa batendo os 51.156 pontos na mínima do dia. Ao final da sessão as vendas recuaram um pouco, mas ainda assim o Ibovespa perdeu 3,96%, encerrando aos 51.408 pontos, menor patamar desde agosto do ano passado. O giro financeiro seguiu elevado - levando em conta os parâmetros recentes - somando mais de R$ 5,2 bilhões.

Essa extremada aversão a risco e desmanche sistemático de posições também atingiu a cotação do dólar. A moeda norte-americana teve o maior ganho diário ante o real desde 16 de agosto do ano passado ao subir 2,68%. Assim, a divisa encerrou negociada a R$ 1,720 na compra e a R$ 1,722 na venda.

Na roda de pronto da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM & F), a moeda subiu 2,39%, encerrando a R$ 1,716. O volume financeiro somou US$ 360,5 milhões. O giro interbancário foi elevado e passou de US$ 6 bilhões.

Em apenas seis dias, a divisa já avançou 6,16% ante o real. No ano, o dólar ainda perde 3% sobre a moeda brasileira. Um mês atrás, essa baixa era superior a 12%.

No entanto, não há indicação de fuga de dólares do país. Os investidores estariam se posicionando no mercado futuros fazendo apostas contra o real. Os exportadores, que ofertam dólares, também estão ausentes, crentes que a tendência da moeda norte-americana no curto prazo é de alta. Partindo dessa mesma premissa, os importadores estão comprando moeda para manter suas margens de ganho.

Os juros futuros tiveram o pregão mais movimento em um mês com forte acumulo de prêmios. A alta do dólar é apontada como principal fonte de incerteza, pois soma risco inflacionário. Por outro lado, esse mesmo risco inflacionário é mitigado pela trajetória de baixa no preço das commodities. Outra análise que pode ser feita é que a maior aversão a risco resulta em restrição de liquidez e agentes exigindo prêmios maiores para emprestar dinheiro.

Na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2010, o mais negociado, apontava alta de 0,18 ponto percentual, para 14,82% ao ano. O vencimento janeiro 2011 subiu 0,29 ponto, a 14,55%. Janeiro 2012 teve valorização de 0,34 ponto, para 14,29%.

Entre os contratos curtos, o vencimento para outubro de 2008 avançou 0,04 ponto, para a 13,38%. Novembro de 2008 encerrou a 13,52%, com ganho de 0,05 ponto. Dezembro de 2008 subiu 0,04 ponto, para 13,72%, e o DI para janeiro de 2009 também acumulou 0,04 ponto, fechando a 13,92% ao ano.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 733.625 contratos, equivalentes a R$ 59,89 bilhões (US$ 35,80 bilhões), montante 27% maior do que o observado um dia antes e o maior já registrado no último mês. O vencimento de janeiro de 2010 foi o mais negociado, com 317.045 contratos, equivalentes a R$ 26,42 bilhões (US$ 15,79 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor Online)