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SÃO PAULO - O mercado brasileiro se rendeu a mais um dia de irracionalidade nas praças externas, com fortes perdas para a bolsa, valorização significativa para o dólar e ajuste de alta para as taxas de juros futuras, em um movimento típico de momentos de aversão a risco acentuada. Depois de oscilar entre baixas de 11% e 14% ao longo da tarde, o índice Ibovespa fechou aos 36.833 pontos, com baixa de 11,39%, em dia que movimentou R$ 9,730 bilhões.

O índice atravessou para a segunda etapa dos negócios acionando o "circuit breaker" às 14h25, quando houve queda de 10%. " Não é pânico, há um inércia vendedora para cobertura de prejuízo e ainda há irracionalidade " , diz Álvaro Bandeira, diretor da corretora Ágora Senior.

No segmento cambial, o dólar comercial fechou com apreciação de 3,48%, comprado a R$ 2,164 e vendido a R$ 2,166. Em alta desde a abertura, a moeda alcançou a máxima de R$ 2,20 durante a manhã. O giro interbancário foi de US$ 2,686 bilhões. Na roda de dólar pronto da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM & F), a moeda subiu 3,39%, cotada a R$ 2,163.

Desde 15 de setembro, ou seja, um mês após a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) já perdeu quase um terço de seu valor: 29,70% de baixa, considerando os fechamentos de 12 de setembro e o de hoje. No mesmo período, o dólar comercial avançou 21,62%.

Ninguém esperava uma reação tão traumática para o mercado doméstico ontem, mas o mau humor começou cedo, com a queda de 1,2% nas vendas do varejo americano em setembro, maior variação de baixa em três anos. Além disso, o mercado viu um lucro 84% menor do JPMorgan e já antecipa números piores pela frente.

Depois disso, o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, mostrou realismo em relação à situação e afirmou que, embora confie na capacidade da economia dos EUA de se reerguer, essa recuperação não será " imediata " . O discurso traduziu o espírito que dominava as operações em Wall Street, mas não serviu para controlar as baixas, que se acentuaram também na Bovespa.

" As medidas já foram tomadas e agora o mercado precisa andar sozinho, mas não há confiança pois a previsão é de uma recessão brava no mundo " , diz um analista de uma corretora paulista que prefere não ser identificado. Essa avaliação explica recuo de ações ligadas a commodities. Petrobras PN caiu 12,08%, para R$ 24, e Vale PNA perdeu 15,16%.

No câmbio local, a moeda americana só não deu um salto porque as atuações do Banco Central (BC) impediram isso. O BC usou todos os instrumentos possíveis para atender à demanda por moeda, mas apenas controlou a tendência de valorização. A primeira entrada ocorreu logo cedo, com a venda livre no mercado à vista, a uma taxa de R$ 2,1450.

Ainda pela manhã a autoridade monetária cumpriu um leilão de linha, com compromisso de recompra em 15 de janeiro, e vendeu US$ 600 milhões do total de US$ 1 bilhão. Em seguida, anunciou que tentaria vender os US$ 400 milhões restantes na parte da tarde, o que acabou ocorrendo. Antes disso, às 13h, o BC também cumpriu o leilão de contratos de swap cambial, com colocação US$ 1,282 bilhão em títulos.

Para o economista Newton Rosa, da Sul América Investimentos, a atuação da autoridade monetária é oportuna e ponderada. Vanderley Arruda, gerente de câmbio da corretora Souza Barros, comenta, no entanto, que as decisões do BC, de liberar o compulsório para que os bancos possam usar o dinheiro extra para emprestar ao setor produtivo, ainda não surte efeito. A liquidez continua represada pela crise de confiança que vigora lá fora e aqui.

A irracionalidade controlou também os movimentos das taxas dos Depósitos Interfinanceiros bancários (DIs) negociados na BM & F, que fecharam com alta expressiva. O contrato de DI com vencimento para janeiro de 2010, o mais negociado, subiu 0,05 ponto percentual, a 14,73% ao ano. O vencimento janeiro 2011 fechou a 15,21%, com alta de 0,11 ponto percentual. O vencimento de janeiro de 2012 projetou 15,63%, ganho de 0,15 ponto.

(Bianca Ribeiro | Valor Online)

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