Com indicadores que mostram desaceleração mais clara da economia, analistas avaliam hipótese de que a Selic precisará subir menos

O mercado financeiro está dividido nas apostas para o rumo da taxa de juro básico da economia, a Selic. Nas vésperas da reunião que anuncia a decisão no início da noite de amanhã, ainda não há consenso. Entre analistas ouvidos semanalmente pelo Banco Central (BC), prevalece previsão de alta de 0,75 ponto porcentual, para 11%. No mercado futuro, porém, negócios levam em conta a hipótese de aperto menor, de 0,50 ponto. Em meio ao debate, o Bradesco foi a primeira grande instituição a mudar oficialmente o prognóstico: reduziu a estimativa de elevação de 0,75 ponto para 0,50 ponto.

A pesquisa Focus divulgada ontem pelo BC não trouxe alteração nas previsões dos analistas para a Selic. O levantamento repetiu pela décima semana seguida a expectativa de que a taxa de juro deve subir amanhã para 11%. A aposta, porém, pode estar atrasada. Nos últimos dias, diante de indicadores que mostram desaceleração mais clara da atividade, muitos agentes começaram a trabalhar com a hipótese de que o juro precisará subir menos para conter a inflação. "Muita gente mudou sua previsão. Tivemos dados de inflação mais fraca e economia em desaceleração. A atividade está em um ritmo mais baixo há mais de um mês", diz o professor de economia da USP Fabio Kanczuk.

Diante do cenário, os negócios no mercado de juros mudaram de rumo na semana passada. A alteração, porém, ainda não foi sentida na pesquisa Focus porque os dados são coletados durante toda a semana pelo BC. O prazo elástico pode não ter sido suficiente para captar eventuais mudanças de prognóstico dos economistas.

Um exemplo é o Bradesco que anunciou ontem a mudança de seu prognóstico. "A forte expansão doméstica da atividade no primeiro trimestre cedeu lugar a um crescimento mais moderado recentemente, removendo parte do risco de que houvesse um sobreaquecimento no ciclo atual", explica o diretor de pesquisas e estudos econômicos da instituição, Octavio de Barros.

Em relatório, ele argumenta que a decisão não foi tomada apenas diante de números de curto prazo. "A sequência de dados mais fracos alcançou um período e um número razoável de indicadores para que se faça necessária uma mudança da leitura sobre a velocidade de expansão da economia", afirma, ao lembrar da criação de empregos, vendas no varejo e imóveis, todos com desempenho aquém do esperado.

Octavio de Barros avalia que o novo ritmo gera duas implicações: é preciso revisar para baixo a previsão de crescimento da economia e há aumento da incerteza no cenário futuro. "A experiência internacional de bancos centrais, assim como a teoria econômica, mostra que quando há aumento da incerteza, a política monetária caminha mais devagar, ainda que mantenha a direção", explica.

Segundo a pesquisa do BC, para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, o mercado mantém a aposta de crescimento de 7,20%. Para a inflação, as previsões mantiveram trajetória de queda e a expectativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu de 5,45% para 5,42%, na segunda redução consecutiva. Apesar disso, a estimativa ainda está acima do centro da meta de inflação para o ano, de 4,50%.

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