Atropelados por uma avalanche de indicadores econômicos mais fracos do que o esperado, tanto para a atividade quanto para a inflação, muitos analistas revisaram, nos últimos dias, as projeções para o resultado da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começou ontem e acaba hoje. Com isso, a aposta majoritária para o encontro passou a ser de um corte de 0,75 ponto porcentual da taxa básica de juros (Selic), que iria, assim, para 13% ao ano.

Quinta-feira, o AE Projeções, um serviço da Agência Estado, consultou 61 instituições e constatou que 30 delas esperavam um corte de 0,50 ponto, 27 contavam com uma redução de 0,75 ponto e quatro, com 1 ponto porcentual.

No início desta semana, o AE Projeções voltou a ouvir as 61 instituições. Dezessete revisaram as estimativas - a única a não retornar o contato foi o Pátria Investimentos, que esperava corte de 0,50 ponto na Selic. Agora, entre as 60 instituições, 16 projetam diminuição de 0,50 ponto; 36, de 0,75 ponto; e oito, de 1 ponto porcentual.

Um dos catalisadores das mudanças foi o IGP-10 de janeiro, divulgado quinta-feira passada, que apontou deflação de 0,85%. As projeções iam de queda de 0,25% a 0,50%. No dia seguinte, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que o recuo nas vendas do varejo de novembro também superou as estimativas. A expectativa era de um declínio de 0,60% ante o mês anterior, mas foi apurado um índice maior, de 0,70%.

Por fim, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho mostrou corte de 654 mil postos de trabalho em dezembro, número que surpreendeu até mesmo integrantes do governo. "O resultado do Caged foi a cereja de um bolo bastante indigesto", comentou o economista André Guilherme Perfeito, da Gradual Investimentos.

Para ele, o Copom deverá cortar a taxa básica de juros em 1 ponto porcentual. Antes, ele apostava em 0,75 ponto. Perfeito trabalha atualmente com uma expectativa de expansão de apenas 1,10% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2009.

O economista-chefe da Votorantim Asset Management, Fernando Fix, estava no grupo que esperava redução de 0,50 ponto da Selic. Agora, projeta 0,75 ponto. "Alertávamos para a possibilidade de uma queda maior, caso os indicadores anteriores à reunião viessem mais fracos", disse. Efetivamente, foi isso que observamos nos dados de produção industrial, produção de automóveis e vendas no varejo."

A economista Márcia Dantas, do Banco Cruzeiro do Sul, passou pela mesma transição. "Os indicadores da semana passada, o arrefecimento da inflação, a forte queda da economia...Foi um conjunto de índices (que a levou a alterar a projeção para o corte do juro)", observou. O economista-chefe da Telefônica, Luís Afonso Lima, que também espera um corte de 0,75 ponto agora, ressaltou especificamente os dados positivos de inflação. "Se essas taxas negativas nos IGPs forem repassadas para os IPCs, teremos deflação", afirmou.

O diretor executivo do Instituto de Estudos Latino-americanos e do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, Thomas Trebat, é a favor de uma atitude mais agressiva do Copom. Em entrevista à Agência Estado, Trebat disse que os "tempos exigem" uma ação mais forte, o que seria correspondente a um corte de 1 ponto porcentual da Selic.

"A crise é mais dura do que era esperado (no que concerne ao Brasil)", disse. "Sou a favor de um corte agressivo, ou seja, 1 ponto porcentual ou talvez até mais pouco." Para ele, uma queda dessa magnitude "não seria exagerada nem irresponsável na conjuntura atual brasileira". Ele teve uma longa carreira em Wall Street, antes de ir para a vida acadêmica.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.