SÃO PAULO - Os mercados de todo o mundo pareciam ter passado pelo pior na semana passada, mas viveram ontem pânico ainda maior. A tormenta foi justificada pela disseminação da crise financeira para bancos europeus no fim de semana e a percepção de que a economia real dos países desenvolvidos estaria definitivamente comprometida, à beira de uma recessão.

No Brasil, os ativos apontaram comportamento negativo histórico. O dólar comercial encerrou o pregão com elevação de 7,42%, a maior valorização desde janeiro de 1999, cotado a R$ 2,1960 para a compra e R$ 2,1980 para a venda, maiores preços desde 25 de setembro de 2006. Pouco antes do fechamento, a moeda testou a máxima de R$ 2,20.

Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a parar automaticamente duas vezes, pelo sistema " circuit breaker " , ao tombar mais de 10% e 15%, respectivamente. No fim dos negócios, o anúncio de medidas pelo governo brasileiro para elevar liquidez permitiu que o Ibovespa reduzisse a baixa para 5,43%, aos 42.100 pontos. O giro financeiro foi de R$ 5,270 bilhões.

O movimento na bolsa foi tenso o dia todo. Aos 20 minutos de abertura, o índice caiu pouco mais de 10%, acionando o sistema automático pela primeira vez. Após 30 minutos de paralisação, os ativos deram prosseguimento ao movimento de baixa e, ao passar de 15% de perdas, os negócios foram interrompidos mais uma vez, entre 11h44 e 12h44. A bolsa paulista chegou a estabelecer um novo limite inédito, de 20% de baixa, para que o " circuit breaker " fosse acionado pela terceira vez, mas o Ibovespa não forçou tal variação.

Em Nova York, o Dow Jones manteve o clima de caos ao recuar 3,58%. O Standard & Poor´s 500 cedeu 3,85% e o eletrônico Nasdaq fechou com desvalorização de 4,34%. Na Europa, as perdas também foram fortes.

As notícias do fim de semana no mercado bancário europeu, como o socorro do governo alemão ao banco hipotecário Hypo e a compra emergencial do Fortis pelo francês BNP Paribas, aumentou a percepção dos agentes de que a crise iniciada nos EUA " atravessou o Atlântico " .

A avaliação é de que a desaceleração da economia real, rumo a uma recessão global, pode ser um fato não contornável. Nem mesmo o plano de resgate dos EUA, de US$ 700 bilhões, aprovado pelo congresso na última sexta-feira, garantiu a confiança dos agentes, que esperam uma grande burocracia para a implementação dos resgates.

Agentes de mercado avaliam que a redução no ritmo de queda no Ibovespa na reta final se deveu a movimentos técnicos, com participantes aproveitando os preços baixos, à influência de Wall Street, que também diminuiu perdas no final da sessão, e ao pronunciamento do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles.

Ambos vieram a público às 16 horas para informar o uso de parte das reservas para dar liquidez aos bancos e permitir que os exportadores continuem tendo crédito. Ainda nesse sentido, ambos afirmaram que o BNDES terá R$ 5 bilhões adicionais para a linha dedicada a financiar exportações.

Felipe Casotti, economista do setor de renda variável da Máxima Asset Management, disse que a redução da baixa surpreendeu os analistas, mas que a tendência para as operações continua sendo pessimista. Segundo ele, além de perspectivas desfavoráveis para a economia dos EUA e da Europa, há o temor de risco sistêmico global para os bancos.

Alguns agentes explicam que o quadro é ruim para os ativos brasileiros não só pela ponta comercial, com ganhos menores com exportações para desenvolvidos. A demanda global menor também afeta os preços de commodities, o que, por sua vez, tem impacto nos papéis de maior peso listados na bolsa.

Entre os ativos de maior peso na carteira, Petrobras PN chegou a cair 19%, mas fechou em baixa de 3,22%, a R$ 30,00; Vale PNA perdeu 6,80%, a R$ 26,99; BM & FBovespa ON teve queda de 2,06%, saindo R$ 7,10; Bradesco PN se desvalorizou 6,58%, valendo R$ 25,55; e Vale ON diminuiu 7,60%, a R$ 30,25.

No câmbio, a situação também saiu de controle. Puxada pelo aumento da aversão a risco por parte dos investidores estrangeiros e locais, a moeda manteve forte apreciação mesmo com leilão de swap cambial feito pelo BC no início da tarde, no montante de US$ 1,470 bilhão. A saída de ativos para o mercado de títulos americanos pressionou a valorização, assim como o ajuste de posições de investidores apostando contra a moeda brasileira.

As medidas do BC, anunciadas no fechamento do pregão cambial, não tiveram muito efeito para o fechamento oficial da moeda, mas o mercado acredita que o dólar pode amanhecer com ajuste de baixa hoje. " Com as novas medidas, a partir de amanhã deve ocorrer um ajuste para baixo da moeda, para patamares mais realistas " , avalia Vanderlei Arruda, gerente da mesa de câmbio da Souza Barros.

A aversão a riscos atingiu ainda os contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DIs), que fecharam com forte elevação nos vencimentos mais longos. O contrato com vencimento em janeiro de 2010 apontou alta de 0,33 ponto percentual, a 14,82% ao ano, depois de bater 14,93% na máxima. O vencimento janeiro 2011 teve acréscimo de 0,48 ponto, apontando, 14,92%, e Janeiro 2012 projetava 14,99%, ganho 0,60 ponto percentual.

(Bianca Ribeiro | Valor Online)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.