Carlos Ferreirinha, consultor e diretor-presidente da MCF Consultoria & Conhecimento
A crise financeira mundial abalou a economia em todo o planeta. Alguns mais, outros menos. O mercado de luxo brasileiro está no segundo grupo. Houve apenas uma desaceleração. Se, no ano passado, o Produto Interno Bruto do País caiu 0,2%, o crescimento do setor de luxo por aqui foi de 11,5% -- acima das previsões “pessimistas” de 8%. E este ano pode aumentar entre 18 e 20%. “O ano de 2010, vai superar a nossa taxa de crescimento de antes da crise (17%). Os primeiros quatro meses do ano foram absolutamente positivos para o mercado de luxo, apesar de todos os obstáculos”, afirmou Carlos Ferreirinha, consultor e diretor-presidente da MCF Consultoria & Conhecimento.
O especialista no mercado de luxo também revelou que houve uma mudança no perfil do consumidor brasileiro e dos setores procurados por eles com a crise econômica. O impulso foi substituído por um investimento atemporal e as roupas deram lugar à incorporação imobiliária e veículos. “O consumidor está comprando menos quantidade. Em vez de comprar dez bolsas, o consumidor compra apenas uma bolsa, que pode ter o valor das dez. É uma compra que vai dar uma sensação mais de longo prazo.”, explicou Ferreirinha, que foi executivo da Louis Vuitton, grife francesa de alto luxo .
Em visita ao Rio de Janeiro, a convite da Montblanc para ministrar a palestra “Novos Mercados, Novas Competências – Mudanças de Hábitos de Consumo”, para os parceiros da marca, o consultor Carlos Ferreirinha conversou com o iG e falou sobre o atual mercado de luxo brasileiro e suas projeções para o futuro, inclusive para a Copa do Mundo, em 2014, e Olimpíadas, em 2016. “Para os gringos consumirem nesse período, temos que adotar o conceito de devolução do imposto sob circulação de mercadorias. Se não eles vão comprar apenas pulseirinhas do Senhor do Bonfim e coco”, decretou.
iG: O Brasil foi um dos países que se recuperou mais rapidamente da crise financeira mundial. Apesar disso, houve perdas no mercado de luxo brasileiro?
Ferreirinha: O ano de2008, quando a crise financeira explodiu, teve um impacto profundo no mercado de luxo porque foi a principal e mais importante interrupção do crescimento desse setor em quase 30 anos. A atividade já tinha passado por diversos momentos complicados, mas essa crise foi absolutamente feroz. O abalo econômico afetou, principalmente, o que chamamos de consumo absoluto, que envolvem valores altos, como avião, helicóptero, imóveis de altíssimo padrão, viagens muito especiais, etc. Com isso, cresceram as possibilidades do que chamo de luxo de acesso, dos pequenos luxos, tudo aquilo que envolve possibilidades imediatas.
iG: E como foi 2009?
Ferreirinha: Foi um ano muito complicado para o mundo, mas a economia brasileira conseguiu lidar com a crise de uma forma habilidosa, sofrendo menos o impacto. O mesmo aconteceu com o nosso mercado de luxo. O Brasil teve um ano de 2009 fraco, mas não foi uma grande perda.
iG: Qual foi o crescimento do mercado de luxo no Brasil em 2009 e quanto o setor movimentou?
Ferreirinha: Até 2008, o mercado crescia em média 17%. Com o impacto da crise crescemos, em 2009, 11.5%, o que continua sendo um valor expressivo. Até o final do primeiro semestre do ano passado, todos os empresários acreditavam que não cresceriam mais de 8%, que é um número bom de crescimento, mas se compararmos com os 17%, estamos falando da metade. A expectativa para 2009 era de uma desaceleração profunda da economia do luxo.
Entretanto, o segundo semestre de 2009 compensou o primeiro, e conseguimos crescer os mencionados 11.5%, movimentando R$ 6,7 bilhões. Esse número é extraordinário, se analisarmos as outras economias mundiais, que tiveram crescimento negativo ou de no máximo 2% no mercado de luxo. Tirando a China, é claro, que continua com números de crescimento espetaculares.
iG: Alguma previsão para 2010?
Ferreirinha: Ainda não temos uma previsão oficial, pois a minha empresa, a MCF em parceria com a GfK Custom Research Brasil, está acabando de fazer essa consolidação. No entanto, pelo que a gente está vendo no mercado, 2010 vai superar a nossa taxa de crescimento de antes da crise. Os primeiros quatro meses do ano foram absolutamente positivos, apesar de todos os obstáculos. Podemos superar totalmente o impacto da crise.
Ferreirinha: "Os primeiros quatro meses do ano foram absolutamente positivos. Eu arrisco dizer que o mercado de luxo brasileiro vai crescer entre 18 e 20% em 2010"
iG: O perfil do consumidor de luxo brasileiro mudou nesse período?
Ferreirinha: O consumidor está comprando menos quantidade. Houve uma mudança significativa da compra generalizada, desproporcional, de impulso, que é uma característica do consumo de luxo, que no Brasil vinha de uma forma muito acelerada. A crise trouxe uma parada em relação a esse volume. Em vez de comprar 10 bolsas, o consumidor compra apenas uma, que pode ter o valor das 10. É uma compra que vai dar uma sensação mais de longo prazo, atemporal. E quem ganha são as marcas mais fortes.
iG: Quais são hoje os setores mais prósperos?
Ferreirinha: A área de beleza, com ênfase nos cosméticos e spas, já tem crescimento significante no Brasil. Mas os setores que encontram o seu melhor momento são a incorporação imobiliária e os veículos. O Rio de Janeiro, por exemplo, é a segunda ou terceira cidade com o metro quadrado mais caro do mundo. O Brasil é a décima economia mundial, mas a quarta maior economia consumidora de veículos premium. Esses volumes são expressivos.
iG: O que mais os brasileiros estão consumindo no mercado de luxo?
Ferreirinha: Helicópteros e jatos particulares são bons exemplos. O país está vivendo uma ótima fase. Não somos o maior consumidor da Ferrari, mas somos um dos principais. A Bentley e a Aston Martin abriram suas lojas aqui no Brasil. A aviação executiva, na crise, sofreu um impacto significativo, mas agora volta a estar em um patamar importante. O nome fundamental para isso estar acontecendo é Embraer, que tem uma liderança significativa de jatos particulares no Brasil. Todos esses fatores mostram a ótima fase do Brasil no mercado de luxo.
iG: São Paulo continua sendo a principal consumidora de luxo do Brasil?
Ferreirinha: Ela sempre vai ser! No entanto, o Rio de Janeiro tem crescido bastante. No passado, as marcas de luxo, com exceção de Montblanc e Louis Vuitton, tinham parado de investir no Rio. Mas, com a vinda da Armani, Diesel, criação do Shopping Leblon, fortalecimento do Fashion Mall, esse cenário mudou. Tomara que apareçam outros Eikes Batistas no Rio de Janeiro, para impulsionar cada vez mais essa cidade que imprime, mundialmente, o conceito de beleza.
Ferreirinha: "Os setores que encontram o seu melhor momento no mercado de luxo são a incorporação imobiliária e os veículos"
iG: No seu ponto de vista, em que os empresários brasileiros devem investir para crescer no mercado de luxo?
Ferreirinha: O setor que tem mais potencial é o de serviços, como gastronomia, spas, hotelaria. Isso devido à mão-de-obra brasileira, que une técnica com humanização. O brasileiro consegue imprimir um cuidado e carinho no atendimento que não existe em nenhum outro lugar do mundo.
iG: Qual é o futuro do mercado de luxo no Brasil?
Ferreirinha: Vamos ter um crescimento forte e expressivo. O Brasil hoje representa 1 a 2 % do faturamento mundial do mercado de luxo. No entanto, nos próximos 10 anos, temos a possibilidade de chegar a algo entre 3 e 5%. Analisando friamente, estou falando em dobrar o volume de negócios desse mercado no Brasil. Esse caminho é muito longo, mas é real em 10 anos.
iG: E o consumo de luxo no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo?
Ferreirinha: Vamos ver o surgimento de outras cidades no mercado. O interior do Rio de Janeiro, por exemplo, vai crescer no consumo de carros e incorporações de alto padrão, principalmente com a força do petróleo e do gás no estado. O Norte e Nordeste vão se configurar como regiões brasileiras importantes do mercado de luxo. Elas poderão ultrapassar o consumo absoluto do Sul do país, que tem mais dinheiro, mais renda per capita, mas não tem a vontade e o desejo que o norte e nordeste têm.
iG: O Brasil vai sediar a próxima Copa do Mundo e as Olimpíadas de 2016. São boas notícias para o mercado de luxo do país?
Ferreirinha: Vão fortalecer os setores de turismo, hotelaria e gastronomia com novos empreendimentos sendo abertos no Brasil. O Ritz-Carlton, por exemplo, está dando sinal de que sua primeira operação no Brasil vai ser aberta no Rio. Mas temos uma grande dificuldade. Para que as marcas brasileiras e internacionais ganhem força nesse período, é necessário que adotemos o conceito de devolução do imposto sob circulação de mercadoria. Isso é complicado porque cada cidade tem suas regras tributárias. Para os gringos consumirem, temos que tirar as taxas, caso contrário eles vão comprar apenas pulseirinhas do Senhor do Bonfim e coco.
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