O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, quis deixar claro hoje que a sugestão de ampliação de gastos pelo setor público, feita pelos representantes do G-20 por meio de um comunicado, contém uma série de condições a serem seguidas e que não se trata, portanto, de uma ação a ser implantada sem qualquer ressalva. A preocupação de Meirelles com o esclarecimento desta questão - dado que a principal tarefa da instituição que chefia, que é o combate à inflação - ficou evidente não apenas por meio de seu discurso, durante entrevista coletiva à imprensa ao final do encontro de banqueiros centrais do G-20, mas principalmente durante um ato que chamou a atenção dos jornalistas presentes: o presidente do BC gastou aproximadamente cinco minutos da entrevista para ler calmamente dois parágrafos do comunicado e, assim, identificar argumentos para o seu ponto de vista.

Assim que leu os trechos, Meirelles enfatizou que o rumo da política monetária depende da prerrogativa de cada nação, mas que deve ter como foco a manutenção dos índices de preços em níveis baixos. "A recomendação do G-20, portanto, em relação à política monetária é que os bancos centrais devem adotar a política monetária para manter a inflação sob controle", resumiu. A ampliação das despesas oficiais a fim de minimizar os impactos da crise financeira sobre as economias reais de vários países é assunto recorrente desde a piora da turbulência em meados de setembro e ganhou ainda mais espaço durante este final de semana no encontro do G-20.

A disputa de argumentos e idéias é a mesma em todo o mundo. Enquanto os ministros das finanças buscam obter um crescimento maior da atividade de seus respectivos países, cabe aos presidentes de bancos centrais trazerem com rédeas curtas a expansão dessa economia no intuito de evitar um descontrole inflacionário.

Na coletiva de hoje, bem-humorado, Meirelles, ao pegar o comunicado escrito em inglês, brincou: "Vou fazer uma tradução simultânea". E a partir daí leu os seguintes trechos:

"Nós reconhecemos a relevância da adoção de políticas monetárias saudáveis. A recente desaceleração do crescimento mundial e conseqüente redução dos preços de commodities (matérias-primas) têm diminuído pressões inflacionárias, especialmente nas economias avançadas, e permitido aos bancos centrais daqueles países decidir pela flexibilização monetária. Nas economias que estão enfrentando depreciação de suas moedas e ainda enfrentando os efeitos secundários disso, as pressões inflacionárias podem ser mais persistentes. Neste contexto, as autoridades monetárias necessitavam continuar monitorando os desenvolvimentos econômicos visando a adotar as medidas adequadas."

Meirelles continuou a ler outro trecho: "Afirmamos nossa determinação de adotar todos os passos necessários para promover o crescimento não-inflacionário de uma maneira estável e sustentável."

Ao final da leitura, o presidente do BC ressaltou que o comunicado foi cuidadosamente discutido antes de ser aprovado e que expressava com clareza "essa posição". "Todos os países devem adotar políticas fiscais desde que sejam adequadas à situação de cada país."

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