O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, defende as condições políticas do BC de retomar a alta da taxa de juros, a Selic, depois de momentos em que houve "exacerbação" e "passionalização" nos comentários sobre a atuação da instituição, mas não tem dúvidas: as pressões continuarão. "Com certeza, restará a controvérsia com aqueles que pensam que política monetária correta é aquela unidirecional: Selic boa é Selic cadente.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, defende as condições políticas do BC de retomar a alta da taxa de juros, a Selic, depois de momentos em que houve "exacerbação" e "passionalização" nos comentários sobre a atuação da instituição, mas não tem dúvidas: as pressões continuarão. "Com certeza, restará a controvérsia com aqueles que pensam que política monetária correta é aquela unidirecional: Selic boa é Selic cadente." Ao mesmo tempo, garante: "Nenhum Banco Central sobe juros mais que o necessário para manter a inflação na meta". A seguir, os principais pontos da entrevista, feita por e-mail. <b>Quais os riscos inflacionários que o BC está enxergando? Consumo das famílias elevado? Impulsos fiscais do governo? Expansão excessiva do crédito?</b> Estes e outros fatores incorporam o arcabouço analítico do Copom e são levados em conta na elaboração do cenário prospectivo de inflação. <b>A pesquisa Focus mostra que nas últimas semanas o mercado aposta em uma curva ascendente para os preços em 2010. O aumento da Selic, considerando o consenso da última reunião do Copom, tem impacto para trazer a inflação do ano para próximo do centro da meta de 4,5%? Ou o foco do BC já é 2011? </b> No regime de metas de inflação, o BC implementa uma estratégia de política monetária visando a assegurar a convergência da inflação para o centro da meta no horizonte relevante que, neste caso, são os 12 meses à frente e o ano de 2011. O que o BC não pode fazer dentro de um regime de metas é, por um lado, calibrar uma política monetária excessivamente contracionista para o seu horizonte de planejamento, visando a contrabalançar ou compensar integralmente, ainda no ano-calendário, fatores que ocorreram no passado. Por outro lado, também não deve, como não fez em 2006, inflacionar a economia no restante do ano para compensar um choque positivo de commodities ocorrido no início do ano. O que o regime também não admite é que o BC calibre a política monetária visando a uma inflação acima do centro da meta no horizonte relevante. Para isso, o BC analisa os diversos componentes da dinâmica inflacionária e toma as medidas necessárias para assegurar a convergência da inflação para o centro da meta. <b>Alguns analistas dizem que parte dos elevados índices de inflação no início do ano foi causada por fatores pontuais. Como o Regime de Metas trata os choques exógenos?</b> Os bancos centrais adotam três abordagens diferentes no regime de metas de inflação, visando a lidar com essa parte da inflação referente a choques na economia, positivos ou negativos. A primeira abordagem é trabalhar com os núcleos de inflação. Nessa metodologia adotam-se medidas de inflação que excluem alguns itens voláteis e que não são diretamente influenciáveis pela política monetária doméstica. Portanto, esses BCs descartam alguns itens, de maneira a trabalhar apenas com a tendência de inflação.A segunda abordagem é não se levar em conta o ano-calendário. Leva-se em consideração apenas o horizonte relevante a cada momento. A terceira abordagem é a que foi adotada no Brasil: o CMN determina um índice de inflação cheio no ano-calendário. Neste caso, os BCs trabalham tendo em vista o horizonte relevante, porém é fixado um intervalo de tolerância no ano-calendário para acomodar choques externos. Em resumo: o BC no Brasil age rigorosamente segundo o arcabouço do sistema de metas e trabalha de acordo com o seu cenário prospectivo de inflação. <b>O Banco Central se prepara para uma nova reunião do Copom com apostas de alta de 0,5 ponto porcentual ou de 0,75 ponto porcentual da taxa Selic. Neste momento, o que pesa para a definição da dosagem da alta dos juros?</b> O Banco Central efetua uma análise, quantitativa e qualitativa, do cenário de inflação e decide qual estratégia de política monetária é a mais adequada para assegurar a convergência da inflação para o centro da meta no horizonte relevante. Os membros do Copom avaliam um conjunto extenso de indicadores econômicos, bem como os resultados dos modelos macroeconométricos de projeção de inflação aperfeiçoados pela equipe técnica do Banco Central ao longo de muitos anos de experiência. Esse processo de análise permite que se adote uma decisão prospectiva, isto é, uma decisão que avalia o comportamento futuro da atividade econômica e dos preços, informada pela experiência do BC do Brasil e de outros países, por pesquisas acadêmicas, além do conhecimento adquirido sobre o funcionamento da economia brasileira. <b>A leitura do BC de que há risco inflacionário é contestada pelos críticos usuais do Banco Central. Existem afirmações de que "não existem gargalos de oferta" e que os mercados "estão míopes" ao elevarem suas previsões para a inflação. Existe meio-termo nessa discussão, como nem tanta inflação e nem tanto juros?</b> Não há meio-termo no regime metas de inflação. Ou adota-se uma política monetária visando a atingir a meta ou não há meta e, sim, outro regime. Além disso, é evidente que nenhum BC decide subir juros mais do que o necessário para manter a inflação na meta. O histórico dos últimos 7 anos mostra que a inflação situou-se ora acima, ora abaixo do centro da meta, dentro do que foi determinado pelo CMN. Um banco central excessivamente conservador teria entregue inflações consistentemente abaixo da meta. Além disso, os ganhos de uma política econômica responsável são inquestionáveis no Brasil. O desempenho superior não só ante a outros países mas também comparando-se com crises enfrentadas pelo Brasil no passado mostra isso mais uma vez. A inflação na meta é parte crucial dessa política. A taxa de crescimento do produto neste período mostra o sucesso das políticas adotadas, pois o PIB cresceu 2,1% entre 1999 e 2002; 3,3% entre 2003 e 2005 e 5,0% entre 2006 e 2008,mais do que o dobro da média de 1981 a 2003. <b>Quando o sr. desistiu da candidatura política, declarou que ficaria no Banco Central para contribuir com a "racionalidade econômica". O BC tem condições políticas para conduzir a nova rodada de alta dos juros?</b> O Banco Central do Brasil tem hoje uma reputação internacional consolidada e um histórico de enfrentamento de pressões que o habilitam a prosseguir sua trajetória bem-sucedida de controle da inflação. A conjugação da surpresa de muitos com a força da recuperação da economia brasileira na saída da crise, a possibilidade de mudança do presidente do BC e um ambiente politizado pelo ano eleitoral levaram a uma exacerbação da análise de riscos e mesmo a uma passionalização dos comentários. Segundo alguns comentários, a decisão da última reunião, por exemplo, adquiriu contornos dramáticos, como se a defasagem e os efeitos das ações de política monetária tivessem um horizonte de dias ou horas, e não de muitos meses. O fato, no entanto, de haver um Copom a cada 45 dias, de existir não uma mas uma sequência de decisões, aliados à minha permanência no BC, deverão eliminar essas dúvidas. Com certeza, no entanto, restará a controvérsia com aqueles que pensam que política monetária correta é aquela unidirecional: Selic boa é Selic cadente. <i>As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.</i>

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