Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Medida do BC pode indicar freio na Selic, apostam analistas

SÃO PAULO - Ao ampliar a oferta de crédito em R$ 13,2 bilhões por meio de flexibilizações nas regras dos compulsórios bancários, o Banco Central sinaliza que pretende estancar ou suavizar o movimento de alta da taxa Selic.

Valor Online |

Essa interpretação, embora não consensual, foi suficiente para reduzir as taxas de juros negociadas no mercado futuro da BM&F.

As baixas foram pequenas. O CDI previsto para a virada do ano recuou de 14,08% para 14,07%. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, cedeu de 14,84% para 14,82%. Se aquele efeito fosse consensual, o DI futuro teria derretido.

Mas uma parte considerável de analistas acredita que a mexida no compulsório não tem o poder ou a intenção de sinalizar os próximos passos da política monetária. A despeito da injeção de liquidez feita ontem, a intenção do BC continua sendo a de elevar a Selic em 0,50 ponto, de 13,75% para 14,25%, no Copom do dia 29 de outubro.

Pelas decisões tomadas ontem, os compulsórios incidentes sobre depósitos à vista, a prazo e de poupança terão sua sistemática modificada de forma a permitir o retorno de R$ 5,2 bilhões ao sistema já na semana que vem. Prazos para o recolhimento dos compulsórios sobre leasing foram revistos de maneira a ampliar o caixa em R$ 8 bilhões.

Para uma ala de players do DI, a decisão sobre o compulsório criou uma insanável contradição com a política monetária. Afinal, o canal do crédito é o mesmo, seja ele afetado pelo instrumento monetário conhecido com taxa de juro, seja pelo instrumento monetário chamado de compulsório bancário.

Como ampliar a liquidez dos bancos de um lado - e com qual finalidade já que o objetivo é reduzir a demanda - e manter o juro alto de outro, uma medida contracionista do ponto de vista monetário? Para que a mão direita torne-se visível e volte a conversar com a esquerda, será necessário portanto parar de subir o juro. Certo? Não é tão simples assim. A explicação ainda não foi desvelada oficialmente.

Informalmente, os executivos comentam o seguinte: a mudança nos compulsórios visa a ajudar um punhado de bancos pequenos e médios que só estão conseguindo, depois da contração externa, rolar sua carteira de crédito por meio da emissão de CDBs muito dispendiosos (125% do CDI).

A liquidez pode estar empoçada também no Brasil. Há um problema de liquidez no mercado interbancário privado de dinheiro, nada a ver com títulos públicos, Selic ou política monetária. A irrigação de R$ 13 bilhões a bancos médios e pequenos com algum grau de dificuldade em se financiar não sinaliza que o Copom irá parar de subir o juro. Uma coisa é o sinal do BC à sociedade de que trará o IPCA do ano que vem à meta de 4,5%.

Esse mesmo sinal convive com a sobra de liquidez no overnight. Essa sobra diz respeito ao financiamento da carteira de títulos públicos. Trata-se da área do tesoureiro. Aqui não há problema, sobra dinheiro. Já na área de títulos privados dos bancos médios pode estar faltando. E como esses R$ 13 bilhões se destinam a resolver um problema de caixa que se imagina momentâneo, não haverá expansão de oferta de dinheiro para o crédito ao consumo.

Com ou sem esse dinheiro do compulsório, imagina-se que a crise externa forçará uma diminuição na atividade econômica interna, conjuntura esta favorável ao afrouxamento monetário. Certo? A visão conservadora discorda. Se a depreciação cambial - o dólar subiu ontem 1,47%, cotado a R$ 1,8580 - não conseguir contaminar os preços a ponto de justificar a continuidade do aperto monetário, os conservadores vão encontrar um substituto.

A dramática mudança do comportamento do BC no diagnóstico e na solução do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos - antes ele menosprezava o problema já que o investimento direto neutralizava qualquer déficit, agora culpa a crise bancária americana pela piora de suas próprias expectativas - dá uma pista preciosa do que se está pretendendo.

Já que a inflação não fornecerá mais argumentos em favor do arrocho monetário - o IPCA-15 relativo a setembro foi o terceiro em declínio persistente e consistente -, há de se buscar outro. Ele foi dado pelo " agravamento " do déficit externo, resultado da queda das commodities e da ampliação das remessas de lucros.

Para combatê-lo, receita a ortodoxia, só há um jeito: reduzir a demanda interna via manutenção do juro alto. Sem dinheiro no bolso e com medo das conseqüências da desaceleração econômica, a sociedade corta o consumo de importados, isso favorece a balança comercial, e mina os lucros das múltis, cujas remessas cairão.

Para o economista Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Câmbio, a visão muito negativa do BC é " precoce " nesse momento em que sequer se sabe como será resolvida a crise no mercado internacional, cujo epicentro se localiza nos EUA. " O que ocorrerá efetivamente? " , pergunta Nehme. Ninguém sabe. A economia americana conseguirá se reerguer e em caso positivo em qual tempo? O dólar vai valorizar-se ou desvalorizar-se ante as demais moedas fortes?

"A única certeza que se tem é a absoluta incerteza, e da mesma forma que se pode projetar um cenário prospectivo negativo, há condições também de apontar o Brasil como uma opção para investimentos produtivos e em portfólio" , compara o economista. Para Nehme, a visão negativa, sobretudo a de que vai faltar US$ 7,4 bilhões em fluxo no ano que vem, acaba por estimular os movimentos especulativos.

Leia mais sobre corte de juros

Leia tudo sobre: bcselic

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG