O agravamento da crise financeira fez o Banco Central anunciar nova medida para incentivar a negociação de ativos entre bancos e permitir que um maior número de instituições possa usufruir do programa de venda de suas carteiras de crédito, caso enfrentem problemas de liquidez. A partir de agora, o patrimônio de referência máximo de uma instituição para ser incluída no programa não é mais de R$ 2,5 bilhões, e sim de R$ 7 bilhões.

Conforme dados do Banco Central referentes ao fim de junho deste ano, o novo limite enquadra na medida bancos como o Votorantim, HSBC, Clássico, UBS, Citibank, Safra, Nossa Caixa, Credit Suisse e Banrisul - o que não significa necessariamente que eles enfrentem problemas de liquidez.

Para aos bancos que compram as carteiras, a operação pode criar um abatimento do recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo, mas também essa dedução foi alterada pelo Banco Central: o limite máximo de dedução desse compulsório subiu de 40% para 70% dos depósitos a serem recolhidos. A medida entra em vigor no dia 17 de outubro.

Além disso, o Banco Central ampliou a gama de ativos que podem ser adquiridos no programa. A partir de agora, entre as operações favorecidas está a compra de papéis que integram fundos de investimento. A decisão deve funcionar como um alívio para os administradores de fundos, que têm sofrido com os saques cada vez maiores em meio à recente piora do cenário econômico.

Com o agravamento da crise, algumas carteiras de investimento têm sofrido forte queda do patrimônio, resultado das retiradas mais freqüentes por parte dos investidores. Dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) mostram que os fundos tiveram saques líquidos de R$ 2,6 bilhões apenas no último dia 7 de outubro, principalmente na renda fixa - segmento que concentra os papéis beneficiados pela medida do BC. No acumulado dos sete primeiros dias do mês, as retiradas somam R$ 5,8 bilhões, o que representa quase metade do total de saques dos últimos 30 dias.

O problema é que alguns bancos têm tido dificuldade para administrar a situação. Com a falta de dinheiro disponível no mercado, poucos são os interessados em adquirir papéis como títulos privados de renda fixa e cotas de Fundos de Investimento em Diretos Creditórios (FIDC), instrumentos usados largamente pelo setor produtivo. Sem interessados em comprar esses ativos, muitos bancos têm dificuldade em atender aos pedidos de saque dos investidores, o que pode, no limite, atrasar ou até mesmo impedir a retirada do dinheiro investido.

Para amenizar a situação, o Banco Central decidiu que os bancos que comprarem esses papéis também terão como vantagem a redução do valor recolhido a título de compulsório sobre depósitos a prazo. Nos últimos dias, o mercado que negocia esses papéis "travou" em algumas situações porque não existiam compradores interessados, mesmo com a redução dos preços. Com a decisão, há expectativa de que os negócios voltem a fluir em um ambiente mais próximo da normalidade.

Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do BC, elogiou as medidas. "É uma maneira de fazer a liquidez correr no mercado. Nos fundos de investimento, podem existir problemas de liquidez porque correntistas podem estar retirando recursos. Nos bancos, pode haver dificuldade de vender papéis", diz o economista.

O economista-chefe do banco Itaú, Tomás Málaga, explicou que a medida pode facilitar a circulação do dinheiro no mercado, pois os fundos poderão comprar carteiras de títulos de bancos pequenos com problemas de liquidez e revender para outros bancos que estejam com recursos disponíveis, numa espécie de triangulação. "O Banco Central abriu o leque de possibilidades", afirmou. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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