Sem profissionais qualificados no mercado, empresas recorrem a treinamentos internos para preencher vagas

Procuram-se engenheiros. Nos próximos anos, esse tipo de anúncio deve ficar ainda mais comum. Com uma defasagem que pode chegar a 150 mil profissionais nos próximos três anos, as empresas do setor de engenharia e construção começam a se adaptar à realidade de escassez de mão de obra.

José Pastore, professor de Relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), diz que a falta de engenheiros especializados já é uma realidade no mercado brasileiro. "As empresas estão reduzindo o nível de exigência e dando treinamento, por meio de cursos rápidos e seminários. Em muitos casos, estão organizando cursos de maior duração no Brasil e no exterior", diz.

Há mais de 30 dias, a construtora carioca Mudar oferece cinco vagas para engenheiros, com salários entre R$ 6,5 mil e R$ 12 mil, para atuar em São Paulo, Macaé (RJ) e Cuiabá. Candidatos para a vaga não faltam. Mas nenhum – até agora – atendeu ao nível de exigência.

Empresas passam a ofercer cursos para especializar engenheiros
Divulgação Petrobras
Empresas passam a ofercer cursos para especializar engenheiros
“Estamos sentindo dificuldade em encontrar mão de obra especializada no segmento de baixa renda”, diz José Mario Campos, diretor de operações da Mudar. “É um processo que deve demorar de 90 a 120 dias para fechar o quadro com todas as vagas, por conta da dificuldade”, completa.

Campos explica que, como as obras têm prazo para começar, a construtora deverá reduzir o nível de exigência na contratação para finalizar o processo. “Não posso esperar 120 dias. Vamos abrir mão (das exigências e dos cinco anos de experiência pedidos), trazer as pessoas e capacitá-las.”

Segundo Ivan Witt, diretor da consultoria Stter RH, a tendência é que as companhias do setor recorram também à contratação de tecnólogos para suprir a necessidade de mão de obra. “Começa a descer o nível técnico, mas toda cadeia acaba valorizada”, afirma.

Entretanto, os especialistas dizem que há uma linha mínima de exigência, que não pode ser ultrapassada. “Uma indústria como a automobilística ou a aeronáutica não pode reduzir o nível de exigência. Para fazer um avião, é necessário um técnico qualificado”, diz Witt.

Marcos Túlio de Melo, presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), concorda. Para ele, a tendência é de valorização cada vez maior dos engenheiros. “Hoje, há uma carência de profissionais com 10 a 15 anos de experiência, que seriam gestores de projetos, com salários acima de R$ 15 mil.”

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