A manutenção do juro era a aposta da maioria do mercado. O argumento de quem esperava a estabilidade é que ainda é preciso aguardar novos indicadores, principalmente de inflação, para sustentar a urgência de aumento da Selic para desacelerar a atividade e, assim, reduzir a pressão nos preços.

Essa parcela do mercado lembra que, apesar da recuperação da economia no fim de 2009 e da forte reação do varejo, a inflação mais alta do início do ano é sazonal e pode desacelerar nos próximos meses.


A vantagem dos que previam juro estável, porém, era apertada. Pesquisa feita pela Agência Estado com 61 instituições financeiras mostrou que 32 delas - ou 52,5% - previam manutenção em março e alta em abril. Parcela não desprezível de 26 analistas - ou 42,6% - esperava o início do ciclo de aperto monetário. O restante acha que o aumento do juro será após abril.


O argumento dos que defendiam a manutenção da Selic é exatamente o mesmo que faz parte do discurso do Ministério da Fazenda. A equipe trabalhou nos bastidores para postergar a alta do juro que, a contra gosto, é considerada algo "inevitável" no curto prazo. O discurso da Fazenda cita que a recente alta dos depósitos compulsórios (dinheiro que os bancos obrigatoriamente deixam parado no BC), a elevação do superávit primário (economia para o pagamento de juro), o fim das desonerações tributárias e a alta do juro futuro conseguirão desacelerar a economia, o que deve ajudar a segurar a inflação.


Há, ainda, um componente político na decisão. Como há possibilidade de que o presidente do BC, Henrique Meirelles, deixe o cargo para disputar as eleições de outubro, existe o entendimento de que ele deixou a oportunidade para que seu eventual sucessor demonstre independência ao subir o juro em sua primeira reunião em abril para, assim, conquistar confiança do mercado. Além disso, há quem diga que Meirelles poderá dizer na campanha que deixou o cargo com o juro mais baixo da história. Nos bastidores, há expectativa de que o diretor de Normas do BC, Alexandre Tombini, possa assumir a presidência, caso Meirelles deixe o cargo.


Essa, inclusive, pode ter sido a última reunião com a participação do presidente Henrique Meirelles que se filiou ao PMDB no ano passado e pode deixar o cargo no fim do mês para concorrer às eleições de outubro. As apostas são de que ele pode disputar o Senado por Goiás ou até ser o vice da chapa da candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência, Dilma Rousseff.


"O BC mostrou que ainda vai esperar o IPCA de março e as prévias de abril para confirmar a deterioração dos preços", diz a economista-chefe da ICAP Brasil, Inês Filipa. Mesmo com o juro estável, ela acredita que as projeções para a inflação em 2010 e 2011, que estão subindo semana a semana, devem arrefecer. "A ata deverá ser bem conservadora, o que deve ser suficiente para ancorar as expectativas. A tendência é que o IPCA em 2011 volte para 4,50%", diz. Na segunda-feira, a pesquisa Focus do BC mostrou que o mercado espera inflação de 5,03% neste ano e 4,60% em 2011. Em ambos os casos, a projeção está acima do centro da meta de 4,50%.

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