A União Européia (UE) tenta vender a idéia de que está oferecendo uma nova abertura de seu mercado agrícola, mas nem governos europeus e muito menos o Brasileiro compram a versão apresentada ontem por Bruxelas. O comissário de Comércio da UE, Peter Mandelson, abriu ontem as negociações anunciando à imprensa que aumentaria os cortes de tarifas de 54% para 60%, na média.

A França garantiu: não haverá nova concessão. "É pura propaganda", afirmou o embaixador brasileiro Roberto Azevedo.

"Eu também posso fabricar números; isso não é concessão. Os europeus apenas estão incluindo no cálculo das tarifas cortadas produtos que ninguém exporta. Mas o que eu quero ver é onde está o açúcar, o etanol ou frango", atacou o chanceler Celso Amorim. "Isso é o que importa. O que foi dito (pela UE) não tem sentido."

No sábado, Amorim acusou os países ricos de usar técnicas de desinformação nas negociações e chegou a citar Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler. Mandelson é conhecido por suas manobras com a imprensa.

Para o Brasil, a declaração não passou de mais uma manobra midiática e abriu mais uma rixa entre Mandelson e o governo francês, que preside a UE. Paris havia criticado o comissário por estar entregando demais. O único a comemorar foi o governo americano, que demonstram cada vez mais estar aliados com Bruxelas.

"Estamos oferecendo uma melhoria em nossa oferta e espero que os demais países respondam com uma melhoria em suas ofertas também", afirmou Mandelson. "O problema é que eu não vi, por enquanto, nenhum país emergentes fazendo qualquer esforço para melhorar as suas ofertas em outros setores. Nós já oferecemos tudo, esprememos todo o limão."

Uma das contrapartidas esperadas pela UE é no setor automotivo. Bruxelas quer que barreiras tarifárias nos países emergentes sejam removidas para o setor. "O Brasil pede demais e dá pouco", afirmou Michel Barnier, ministro da Agricultura da França. Indagado se não haveria acordo na OMC, ele hesitou: "o Brasil pode sempre renunciar à sua posição".

Para o Itamaraty, a manobra da UE é outra tentativa de criar pressão sobre os países emergentes, dando a impressão de que há novas concessões no setor agrícola. Para o ministro agrícola da França, Michel Barnier, não existe nova oferta. "O que houve foi uma um novo cálculo que estávamos dispostos a oferecer. Não vamos oferecer nada novo, pois nenhum país aceitaria. Agora vamos esperar contrapartidas. Não haverá nada além de 60%", afirmou.

Vários ministros europeus pediram explicações à Mandelson e até o novo cálculo será avaliado. Bruxelas explicou mais tarde que a proposta não passava da inclusão de produtos tropicais na lista, que tinham a previsão de serem cortados. "Já somos os mais generosos. Agora é o momento de contrapartida", afirmou a secretária de Indústria da França, Anne Marie Idrac.

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