A estréia das 44 lojas do Magazine Luiza ontem na Grande São Paulo desencadeou uma visível guerra de preços entre as gigantes do setor, apesar de as empresas não admitirem publicamente esse movimento. Na semana passada, a superintendente do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, frisou que não veio à São Paulo para guerrear.

Mas não foi isso que se viu ontem nas lojas.

O consumidor que teve paciência e pesquisou preço nas lojas do Magazine Luiza, Casas Bahia e Ponto Frio enfileiradas em menos de duas quadras da rua Teodoro Sampaio, no bairro paulistano de Pinheiros, por exemplo, pôde conseguir descontos de até 15% nos eletrodomésticos e eletrônicos, só pelo efeito da hiperconcorrência.

A reportagem do Estado percorreu as três lojas da rua Teodoro Sampaio, como um consumidor comum, e conseguiu que uma geladeira modelo frost free da marca Brastemp, anunciada inicialmente no Magazine Luiza e nas Casas Bahia por R$ 1.699 à vista, saísse por R$ 1.541 nas Casas Bahia, depois que foi pedido um desconto. Ao ser informado da oferta do concorrente, o vendedor do Magazine Luiza reduziu o preço do produto para R$ 1.535 e alegou que não poderia baixar mais porque o preço original da geladeira era R$ 1.799. Além disso, o vendedor do Magazine Luiza frisava que o consumidor poderia concorrer a dois caminhões de prêmios no valor de R$ 14 mil cada caso comprasse em sua loja. No Ponto Frio, o produto saía por R$ 1.599,99, e o vendedor não tinha autonomia para dar desconto.

A guerra de preços entre o Magazine Luiza e as Casas Bahia se repetiu no caso de uma televisão de tela plana da marca Toshiba, de 29 polegadas, anunciada no Magazine Luiza por R$ 679, à vista. Depois de saber da oferta do concorrente, o vendedor das Casas Bahia reduziu o preço à vista da TV de R$ 799 para R$ 679, um desconto de R$ 120, ou 15%. Já no Ponto Frio, que vendia a mesma TV por R$ 799, o vendedor disse que não poderia reduzir o preço do produto, mesmo depois de ter sido informado que os dois concorrentes tinham um preço R$ 120 menor.

A grande discrepância entre os preços de um mesmo item também foi constatada pela artesã Maria Dulce Cabral de Vasconcelos, que ontem foi conhecer a loja do Magazine Luiza. "Vi um aquecedor por R$ 109, à vista, e no Best Shop estava mais barato", disse a consumidora. Ela acrescentou que, nesse caso, como o produto é anunciado na TV e o negócio fechado pelo telefone, há uma taxa de entrega. "Mas sempre tem um brinde."

O diretor da consultoria Mixxer, Eugênio Foganholo, acredita que a guerra de preços terá vida curta. "Nenhuma das grandes redes é tradicionalmente agressiva em preços", afirmou. "Mas, no momento, o Magazine Luiza usará todos os recursos que puder para atrair pessoas para as lojas: descontos, promoções, sorteios."

No início da noite de ontem , a rede não tinha dados exatos sobre o primeiro dia de vendas. Informou apenas que formaram-se filas na hora em que as lojas foram abertas. A rede, a partir de ontem, passou também a parcelar em 24 vezes os produtos pagos com cartão de crédito tradicional.

Procurados, os concorrentes não quiseram se manifestar. O Ponto Frio afirmou que "considera a concorrência natural e não tem posicionamento sobre a chegada do Magazine Luiza". As Casas Bahia afirmaram, por meio de sua assessoria, que "acham a concorrência saudável e desejam boa sorte ao Magazine Luiza".

Em um primeiro momento, Foganholo avalia que deve haver uma movimentação na clientela. "Acredito que clientes das concorrentes migrarão para o Magazine Luiza. Entre o Ponto Frio e as Casas Bahia, o Ponto Frio deve ter uma perda ligeiramente maior de clientela por não ter uma imagem de mercado tão definida."

Depois, segundo o consultor, deve-se verificar um aumento de vendas no setor como um todo. "Dada toda a exposição à venda de eletrodomésticos e móveis que essa disputa vai gerar, mais pessoas se interessarão pelos produtos e o consumo deve crescer. Quem ganha, com certeza, é o consumidor, que tem mais opções para pesquisar."

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.