Mesmo antes de qualquer decisão do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre se permanecerá no cargo, a diretoria da instituição teve ontem nova mudança. O último diretor vindo do mercado financeiro, o economista Mário Mesquita, anunciou ontem de manhã a saída da cadeira de Política Econômica por "motivos pessoais".

Mesmo antes de qualquer decisão do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre se permanecerá no cargo, a diretoria da instituição teve ontem nova mudança. O último diretor vindo do mercado financeiro, o economista Mário Mesquita, anunciou ontem de manhã a saída da cadeira de Política Econômica por "motivos pessoais". Para seu lugar, foi indicado o servidor Carlos Hamilton Araújo, que respondeu durante pouco tempo pela Diretoria de Assuntos Internacionais. Essa vaga será ocupada pelo funcionário do Banco Mundial e ex-assessor da área externa do Ministério da Fazenda, Luiz Awazu Pereira. A troca de cadeiras consolidou, neste final de governo Lula, uma nova e inédita etapa no Banco Central, em que funcionários públicos de carreira têm papel de maior relevância no comando da instituição. Desconforto. A decisão de Mesquita de deixar a diretoria foi tomada no fim de 2009, após muito desconforto com as inúmeras críticas do setor produtivo em relação à política monetária adotada pelo BC. Mais recentemente, também pesou a insatisfação de Mesquita com a discussão sobre a eventual saída de Meirelles do cargo. Ontem, Mesquita nem participou da entrevista sobre o Relatório de Inflação, ao contrário do que fazia habitualmente, nem da solenidade de comemoração dos 45 anos do BC. Apesar dessa insatisfação, o ex-diretor reconhece que, do ponto de vista da experiência para um profissional da área econômica, passou pelo cargo em um dos melhores momentos da história recente. A rica vivência, porém, foi gradualmente ofuscada. E boa parte pode ser atribuída à mudança da correlação de forças dentro da instituição. Nos últimos três anos, Meirelles foi substituindo "falcões" - nomes mais identificados com a ortodoxia econômica que gosta de elevar juros para não dar chance à inflação, como Mesquita e o ex-diretor de Política Monetária, Mário Torós - por nomes do setor público sem clara identificação com ortodoxos ou desenvolvimentistas. Nesse quadro, a balança de poder do BC pendeu para o lado do também funcionário Alexandre Tombini, cotado até para suceder a Meirelles. A pressão no governo e os sinais de que os nomes "do mercado" perderiam espaço e força no BC começaram a incomodar o grupo dos "Mários", que costumava exercer influência em outros diretores. Em novembro, Torós deixou a instituição por "motivos pessoais", após entrevista ao jornal Valor Econômico, em que fornecia detalhes das decisões do BC no auge da crise. Agora, foi a vez de Mesquita. Segundo fontes consultadas pelo Estado, a indicação do novo diretor da área externa, Luiz Awazu Pereira, estava acertada havia cerca de um mês. Pereira é muito ligado ao governo Lula. Já foi chefe da Assessoria Econômica do Ministério do Planejamento e secretário de Assuntos Internacionais da Fazenda na gestão de Antonio Palocci e no início da gestão de Guido Mantega. Segundo fonte do governo, ele não se enquadra nem como ortodoxo nem como desenvolvimentista, mas sim como alguém que analisa a economia de forma mais fria, olhando objetivamente os dados disponíveis. A indicação foi bem recebida no Ministério da Fazenda, que tinha restrições a Mário Mesquita.
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