O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem estar aborrecido e frustrado com o impasse provocado pela Índia, pela China e pelos Estados Unidos nas negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), cujo objetivo era definir regras menos restritivas no comércio mundial. Fizemos as concessões necessárias em produtos industriais e na agricultura e eles não fizeram o que tinham que fazer, afirmou.

Lula avaliou que agora o governo tentará acordos bilaterais para compensar a falta de um acordo global. "Prefiro acreditar, como disse o primeiro-ministro Singh, que não acabou, houve apenas uma pausa para reflexão", disse, referindo-se ao indiano Manmohan Singh. "Acho que o bom senso ainda vai permitir que as pessoas entendam que é preciso que haja esse acordo."

Como avaliaram especialistas, Lula disse que o processo eleitoral na Índia e nos Estados Unidos impediu o acordo. "O Brasil fez o que podia e o que não podia para tentar um acordo que pudesse favorecer os países economicamente menores e de agricultura mais frágil", afirmou.

"Trabalhamos até o último minuto, concordamos inclusive com a proposta da Europa de que era possível fazer o acordo, mas, lamentavelmente, no último segundo, possivelmente por problemas políticos - porque temos eleições na Índia e nos Estados Unidos - houve um impasse entre essas duas nações."

Depois, na entrevista, no Itamaraty, Lula fez questão de elogiar a atuação do chanceler Celso Amorim nas negociações. "Se pudesse, ia prestar homenagem aos nossos negociadores coordenados pelo companheiro Celso Amorim", disse. "Conheci de perto as dificuldades das negociações."

Traição

A uma pergunta se o Brasil tinha traído parceiros tradicionais, como sugeriu a imprensa argentina, Lula respondeu que os países são soberanos. "Então, você acha que posso falar de Estado para Estado porque alguém especulou alguma coisa?", disse. "Nenhum Estado abre mão da sua soberania, cada governante vai defender os seus interesses."

Ele disse esperar que os pontos acordados na OMC sejam cumpridos pelos Estados Unidos e pela União Européia, mesmo que não tenham sido ratificados num acerto final. Na avaliação do presidente a Rodada Doha era garantia de um mundo com mais democracia e paz e menos imigração.

Ao lado de Lula, o presidente da Costa Rica disse que o fracasso de Doha mostrou a "hipocrisia" dos Estados Unidos e União Européia, que sempre manifestam interesse de ajudar no desenvolvimento da América Latina e da África. "O que se evidencia é uma grande hipocrisia, em boa parte porque os lobbies agrícolas são tão poderosos como os lobbies militares na maioria desses países", disse Arias.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, também lamentou o fracasso na OMC. "É uma pena a gente ter trabalhado tanto para não dar em nada", disse. "Era melhor um acordo menor, menos ambicioso do que nenhum acordo; é um retrocesso", acrescentou. "Tínhamos chegado a um ponto positivo no final e agora vamos ter que trabalhar em outra linha, completamente diferente."

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