BRASÍLIA - Alegando que a crise gerou um tempo de anormalidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu pressa na liberação das linhas emergenciais de crédito ao setor produtivo. Nesse momento de pouca liquidez, o prazo para o dinheiro chegar na ponta é crucial, afirmou.

Lula criticou a retenção de crédito pelos grandes bancos, afirmando que "a falta de crédito no Brasil é maior do que deveria". E disse que os bancos oficiais vão continuar a irrigar o mercado e a dar liquidez às empresas, tendo determinado a seus ministros da área econômica que sigam mantendo contatos estreitos com bancos e empresas, para que possam sentir quais são as demandas.

Diante de uma platéia de dezenas de empresários e políticos na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Conselhão), depois do anúncio de mais créditos para irrigar o setor produtivo, Lula determinou ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que crie um pequeno grupo de trabalho para "azeitar" o escoamento do crédito e reduzir a burocracia.

"Precisamos colocar óleo na máquina para dar mais fluidez e reduzir o tempo entre a decisão e o dinheiro chegar na ponta", disse. "Não é culpa de ninguém. A máquina está preparada para trabalhar em processos de normalidade, mas estamos num processo de anormalidade", disse, em referência à crise financeira internacional.

Ele citou que as medidas anticrise adotadas pelos governos americano, inglês e europeus, também "ainda não estão em vigor". E disse que o Brasil precisa aproveitar o vácuo da crise para fortalecer a atividade produtiva, de forma a não perder o bonde do crescimento sustentado. "Na hora em que a crise estiver debelada, quem estiver preparado vai sair ganhando", continuou.

Lula rebateu as críticas sobre seu excesso de otimismo, e disse que vai continuar a estimular o consumo. "O povo não deve ter medo de consumir, comprar uma televisão ou o primeiro sutiã", comentou. "Onde eu puder, vou continuar a falar que o povo deve comprar; esse povo que ficou tanto tempo sem poder comprar", prosseguiu.

"Quem apostar que o crescimento econômico vai ser muito baixo no ano que vem, pode quebrar a cara", continuou Lula, após o ministro da Fazenda anunciar uma projeção de alta real da atividade em 4% para 2009. "Depende de nós transformarmos 2009 em um ano bom, sem ficar choramingando e torcendo contra nós mesmos", afirmou ele.

Segundo Lula, seus críticos querem espalhar o pânico, e por isso ampliam "a magnitude" dos efeitos da crise sobre a economia brasileira.

"Não podemos ficar aqui achando que, porque o mundo está uma desgraça, a crise vai chegar aqui também", disse o presidente. Ele reiterou que a origem da crise é externa e, "no auge da crise lá fora, não chegou nem de leve por aqui", citando que os indicadores de produção e emprego se mantiveram positivos nos meses recentes de pico da turbulência, entre setembro e outubro. "E temos reservas como remédio suficiente" contra a crise, destacou.

Lula voltou a criticar a especulação no mercado financeiro: "A verdade nua e crua é que a crise teve origem no sistema financeiro internacional, em quem ousou vender o que não tinha; ousou ganhar dinheiro sem que as operações gerassem um único botão como produção".

Disse ainda que as empresas que perderam com derivativos agiram como adolescentes que não contam as coisas para os pais. Ele voltou a pedir mudança e mais regulação no sistema financeiro internacional para evitar crises futuras, afirmando ainda acreditar "que o pior já passou".

(Azelma Rodrigues | Valor Online)

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