Para combater os fundamentalistas do mercado e impor regras ao sistema financeiro, evitando que a euforia dos especuladores transforme-se na angústia dos povos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs ontem que a Organização das Nações Unidas (ONU) convoque os presidentes dos bancos centrais e os ministros da Fazenda para uma conferência mundial para discutir a crise econômica. A proposta foi feita em um encontro reservado com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon e, depois, no discurso de abertura da 63ª Assembléia Geral da organização.

Ban Ki-moon considerou a idéia "positiva". O presidente francês, Nicolas Sarkozy, também defendeu uma reunião especial de lideranças da ONU para tratar da crise financeira.

Lula criticou duramente a "ausência de regras" para controlar e regular os investimentos financeiros, o que, na opinião dele, "favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores". Disse que é preciso adotar "mecanismos de prevenção e controle e total transparência nas atividades financeiras".

Depois de pregar a ética na economia, o presidente citou o economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004), para dizer que é "inadmissível" que "os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializados". Arrematando o discurso sobre a parte da crise econômica com mais uma frase de efeito, Lula disse que "a economia é séria demais para ficar na mão dos especuladores" - uma adaptação da frase do primeiro-ministro francês Georges Clemenceau (1841-1929), que dizia que a guerra era algo sério demais para ficar nas mãos dos generais.

Lula dedicou toda a primeira parte do discurso de abertura da Assembléia-geral da ONU à crise financeira dos EUA e ao contágio provocado mundo afora. Pelo segundo dia consecutivo da viagem a Nova York, o presidente falou da crise. Na segunda-feira, ele fez dois discursos e deu duas entrevistas advertindo para a gravidade da situação e tentando tranqüilizar os mercados em relação ao Brasil.

Em sua fala, ontem, o presidente reiterou que "somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas". Na avaliação do governo brasileiro, "uma crise de tais proporções não será superada com medidas paliativas".

No restante do discurso, o presidente tratou do que ele chamou de "outras questões igualmente graves no mundo de hoje" - a crise alimentar, que ameaça mais de 1 bilhão de seres humanos; a crise energética, que se aprofunda a cada dia; os riscos para o comércio mundial, se não for concluído um acordo na Rodada Doha; e a avassaladora degradação ambiental, que está na origem de calamidades naturais.

Lula defendeu a liberdade de migração ao afirmar que "o muro de Berlim caiu e sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria". E acrescentou: "Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo. E com enorme velocidade, e muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas - e até racistas - que nos fazem evocar - temerosos - tempos que pensávamos superados".

Para o presidente "um suposto nacionalismo populista, que alguns pretendem identificar e criticar no sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos". Lula, mais uma vez, criticou também quem acusa a produção de etanol da cana-de-açúcar de prejudicar a produção de alimentos.

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