O presidente Luiz Inácio Lula Silva defendeu hoje que os países emergentes não injetem recursos nos principais organismos multilaterais, como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (Bird) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Na avaliação dele, essas instituições não foram criadas com o objetivo de ajudar os países ricos durante uma crise, e receberam recursos suficientes apenas para auxiliar países emergentes.

"Mas a crise em que eles se meteram é pelo menos 20 vezes a crise asiática, do México, da Rússia. Portanto, não há dinheiro que garanta que o FMI, Bird e BID possam ajudar nessa crise", disse ele, em discurso durante o encerramento do seminário "Oportunidades de Comércio, Negócios e Investimentos entre Argentina e Brasil", ao lado da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista.

Segundo o presidente, o que os países desenvolvidos devem fazer neste momento é injetar capital no FMI, Bird e BID, para que eles possam auxiliar os emergentes cujas economias estão ameaçadas de colapso, mas sem impor condições para a administração de suas políticas econômicas.

"Eu penso que os países ricos precisam dotar essas instituições com o dinheiro necessário para que possam socorrer esses países emergentes que precisam de recursos nesse momento e emprestar de forma diferenciada da crise dos anos 90, emprestar sem que o banco que emprestou determine o tipo de política que vai ser feita naquele país", afirmou.

"Instituições como o FMI e o Banco Mundial só terão sua capacidade de ação e credibilidade recuperadas quando houver maior participação dos países em desenvolvimento", reiterou. "Não faz sentido aumentarmos nossa contribuição para essas instituições enquanto os países ricos, responsáveis pela atual crise, que afeta a todos, continuarem a dar as cartas", acrescentou.

Argentina

O presidente Lula cobrou hoje a aceleração do acordo de cooperação entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco de la Nación Argentina e o Banco de Inversión y Comercio Exterior (Bice), cujo objetivo é aumentar o ritmo de implementação de projetos entre os dois países, especialmente relacionados à infraestrutura.

"Precisamos acelerar a vigência do convênio entre o BNDES, o Banco de La Nación e o Banco de Integração e Comercio Exterior (Bice, banco de fomento argentino). Esse acordo permitirá que o Brasil ultrapasse os US$ 3,6 bilhões de crédito aberto para empreendimentos na Argentina desde 2003", afirmou. "O Brasil continua a apostar na economia argentina e no espaço econômico integrado que estamos construindo", acrescentou.

O acordo, assinado em setembro de 2008, prevê que os bancos oficiais façam rodadas de negócios para identificar projetos estratégicos e economicamente viáveis para acelerar a integração entre os países e o desenvolvimento econômico. "Vamos trabalhar para ver se no dia 23 de abril, quando estivermos na Argentina, a gente possa firmar esse acordo, que por enquanto é só um protocolo, e normalmente em protocolo não se bota dinheiro. Precisamos colocar dinheiro porque é o que vai fazer as coisas funcionarem rápido", declarou.

Lula disse esperar que a reunião do dia 23 de abril, entre os ministros da área econômica do Mercosul, resulte na criação do Banco do Sul. "Finalmente, parece que na segunda-feira os nossos ministros da economia vão se reunir e parece que finalmente nós vamos ter o Banco do Sul funcionando aqui na nossa querida América do Sul", afirmou.

Protecionismo

O presidente Lula minimizou as medidas adotadas pelo governo argentino para proteger a indústria local de mercadorias brasileiras desde agravamento da crise internacional, em setembro do ano passado. "O protecionismo é quase como se fosse uma religião. Quando acontece qualquer coisa, em qualquer país, todo mundo quer defender suas empresas, seus empregos e sua economia. Isso é normal e não precisamos encarar isso como se fosse uma coisa insolúvel", afirmou.

Ele defendeu, porém, a adoção de medidas no Mercosul que combatam o dumping, uma prática em que países exportam produtos a preços inferiores aos praticados em seu próprio mercado. "Penso que nós precisamos ter uma proteção enorme contra o dumping. Precisamos ter protecionismo de verdade", afirmou. "Temos discutido a definição de preços equivalentes e justos para que a economia de um país não prejudique a dos outros. Isso é plenamente possível e tenho certeza de que empresários brasileiros e argentinos estão de acordo", ressaltou. Apesar disso, ele destacou que a saída para a crise é "mais comércio, mais diálogo e aprofundamento das relações entre Brasil e Argentina".

G-20

Ao se referir à reunião do G-20, que acontecerá no dia 4 de abril, em Londres, Lula ressaltou que Brasil e Argentina atuarão de forma conjunta e terão autoridade para expor seus pontos de vistas sobre as principais medidas que devem ser adotadas pelo grupo para atenuar os efeitos da crise. O G-20 reúne as economias mais industrializadas do mundo e países emergentes.

"Estou convencido de que eu e Cristina e alguns companheiros, ao chegarmos no dia 2 de abril a Londres para o G-20, será a primeira vez, acho que na história dos últimos dois séculos, que dois países em desenvolvimento vão chegar a uma reunião com mais autoridade moral que os países ricos. Nossas economias estão arrumadas, nossos bancos são mais sólidos. A crise aqui chegou menos violenta que nos países desenvolvidos", afirmou.

Para o presidente, está cada vez mais claro que o principal desafio que os países em desenvolvimento devem enfrentar é a falta de recursos para financiamento, tanto para empresas como também para consumidores. "Sem crédito, as empresas não investem e a economia não roda", destacou.

Segundo Lula, é "inadiável" a reformulação das instâncias de governança financeira. "O G-8 (grupo dos sete países mais ricos do mundo mais a Rússia) mostrou-se aquém das necessidades atuais. O G-20 é parte da solução. Instituições como FMI e Banco Mundial só terão sua capacidade de ação e credibilidade recuperadas quando houver maior participação dos países em desenvolvimento", afirmou.

Na avaliação dele, Brasil e Argentina terão autoridade para discutir os novos rumos da economia mundial porque "não sucumbiram ao canto de sereia do pensamento único conservador". "Fizemos exatamente o contrário do descrito por aquela cartilha. Nós tivemos rigorosa ação regulatória do Estado sobre o sistema financeiro e de seguros. E contamos com bancos públicos sólidos, reduzindo ainda nossa vulnerabilidade externa. E mais importante, nossas políticas de inclusão social e distribuição de renda tiraram milhões de pessoas da pobreza", declarou.

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