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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua colega argentina Cristina Kirchner deram nesta segunda-feira, em Buenos Aires, um novo impulso às relações comerciais entre os países, superando o atrito que surgiu durante as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Genebra.


Lula comemorou a celebração do maior encontro de empresários brasileiros e argentinos da história. Cerca de 360 empresários acompanharam a comitiva presidencial brasileira em sua viagem oficial a Buenos Aires, que começou na noite de domingo.

Participaram da reunião, intitulada "Argentina-Brasil: uma aliança produtiva crucial", representantes da Federação Industrial do Estado de São Paulo (Fiesp) e de várias grandes empresas brasileiras como Petrobras, Embraer e Camargo Correa.

A visita serviu para superar o atrito durante as negociações da OMC em Genebra, onde o Brasil aceitou uma proposta de abertura dos mercados que a Argentina rejeitava.

Lula defendeu o fortalecimento da "aliança estratégica" entre Brasil e Argentina", a "espinha dorsal" da América do Sul. O presidente brasileiro lembrou que, juntos, os dois países representam "um mercado potencial de 230 milhões de habitantes".

Lula lamentou "o tempo perdido na construção de uma relação estratégica forte entre Argentina e Brasil e da União Sul-Americana de Nações".

Muito aplaudido pelos empresários que assistiram ao discurso, Lula afirmou que "as soberanias dos países são intocáveis, mas podemos construir muitas coisas juntos".

O presidente comparou a relação dos dois países a um casamento e ressaltou a posição geográfica privilegiada do Brasil e da Argentina.

"Por que Deus nos colocou grudados? A gente quando se casa, não é para a mulher olhar para um lado e o homem para o outro. É para estarem juntos", disse. Segundo Lula, durante muitos anos os dois países olharam, individualmente, para Europa e Estados Unidos e "é hora de avançar conjuntamente", afirmou.

"Juntos, podemos fazer a diferença nas negociações internacionais. Juntos, seremos soberanos. Vamos unir nossas forças para garantir nossa integração soberana na economia mundial", sentenciou.

Durante o discurso, Lula afirmou que "uma Argentina industrializada fortalece o Brasil, o Mercosul e o projeto sul-americano". Para tanto, o presidente destacou a necessidade de gerar medidas "para reformar o círculo vicioso".

Lula disse que "o Brasil continua apostando na Argentina, em seus trabalhadores e em seu governo", mas ressaltou a necessidade de "fortalecer as pequenas e médias empresas como verdadeiros motores de integração entre os países". Ele afirmou que busca "avançar na coordenação de políticas públicas" e, para tanto, é preciso "estar atento às possibilidades dos setores estratégicos".

"Necessitamos conversar mais, diminuir a burocracia na Argentina e no Brasil, para que tudo flua com mais facilidade, e não permitir que os interesses individuais de um setor freiem acordos estratégicos", afirmou.

Momento especial

Cristina Kirchner, por sua vez, destacou o "momento especial" da relação entre os dois países, em "uma etapa de crescimento e uma comunhão poucas vezes vista". Cristina disse que "há uma visão comum sobre a necessidade deste vínculo estratégico produtivo, que tem o objetivo de aprofundar as transformações, que ambos os países estão experimentando".

"Devemos aproveitar uma oportunidade única que nos apresenta, como aliança bilateral e como Mercosul, diante de um mundo que muda cada vez mais de forma acelerada", completou Cristina. "Por fim, nos demos conta que necessitávamos nos unir, articularmos inteligente e modernamente."

Cristina Kirchner também voltou a elogiar o potencial industrial brasileiro. "A Argentina não teve a sorte do Brasil. No Brasil, entenderam a importância de um modelo de continuidade, de acumulação produtiva. Na Argentina, onde ocorreram incertezas políticas, entenderam que nosso país poderia se limitar a ser um país de serviços. Mas esse sistema acabou afetando as nossas instituições", disse.

Crise argentina

Esta é a primeira visita de Lula ao país vizinho após a pior crise vivida no governo de Cristina, há sete meses no poder.

No mês passado, o Congresso argentino derrubou um imposto sobre as exportações agrícolas que vinha sendo defendido pela presidente e que havia provocado uma queda-de-braço entre a Casa Rosada e o setor ruralista.

Esta também é a décima segunda viagem do presidente brasileiro à Argentina desde que foi eleito, em 2002. A Argentina é o país que Lula mais visitou em seus seis anos de governo.

A visita do presidente ao país vizinho é feita num momento em que a Argentina acumula 62 meses de déficit na balança comercial com o Brasil e quando os investimentos brasileiros batem recordes e já são o terceiro mais importante do país.

Depois de ler seu primeiro discurso, Lula aproveitou a oportunidade para improvisar e reforçar a importância da relação comercial entre os dois países.

"A corrente de comércio entre Brasil e Argentina cresceu 35% entre janeiro e junho. Se este ritmo for mantido e estou seguro que será, vamos fechar 2008 com o recorde de mais de US$ 30 bilhões de comércio entre os dois países", afirmou o presidente.

Lula comentou ainda o fracasso das negociações da Rodada de Doha e afirmou que a integração entre os Brasil e Argentina é "decisiva" para a inserção dos dois países na economia mundial.

"A frustração da Rodada de Doha exige que nos metamos em outros tabuleiros, e temos que superar distorções e barreiras ao comércio internacional. Nossa aliança estratégica é a espinha dorsal desse projeto", afirmou Lula.

Negociações

Depois de abrir o seminário empresarial, os dois dirigentes se reuniram por mais de duas horas na Casa Rosada, a sede do governo argentino, antes de almoçar no Palácio San Martin, sede da chancelaria.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, chegou a Buenos Aires às 14h30 e seguiu diretamente para o Palácio San Martin. "Chegamos a tempo, saímos de Caracas de manhã cedo para participar de uma reunião trilateral muito importante. Vamos retomar o processo de formação de uma aliança a três", declarou Chávez à imprensa ao desembarcar.

Lula e Cristina Kirchner também puderam conversar na noite de domingo durante um jantar organizado na residência do embaixador do Brasil em Buenos Aires, do qual participou o ex-presidente argentino Nestor Kirchner.

Na noite desta segunda-feira, após a reunião com Kirschner e Chávez, o presidente deixou a Argentina e embarcou para o Brasil.

Minutos antes de deixar Buenos Aires, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, qualificou a visita como "positiva" e ressaltou os esforços para impulsionar a integração realizados pelos Governos de ambos os países.

Com informações da Agência Estado, da BBC Brasil, da EFE e da AFP

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