Machiques (Venezuela), 16 jan (EFE).- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder da Venezuela, Hugo Chávez, reforçaram hoje os laços bilaterais com a assinatura de vários acordos, e defenderam uma nova relação dos Estados Unidos com a América Latina.

Em seu encontro, que se inscreve nas tradicionais reuniões trimestrais iniciadas em 2007, os líderes mostraram vontade de aumentar a cooperação e reforçar as trocas.

"Só a união nos tornará independentes", disse Chávez em discurso, após assinar com o presidente brasileiro mais de dez convênios e memorandos, especialmente em matéria alimentar e energética, em um ato realizado no estado venezuelano de Zulia, cerca de 700 quilômetros de Caracas e divisa com a Colômbia.

Após lembrar que Lula ainda tem dois anos de mandato, Chávez destacou que é preciso "aumentar a velocidade" para consolidar o caminho empreendido.

Nas próximas semanas, equipes de funcionários de alto nível dos dois países manterão reuniões para analisar o desenvolvimento dos projetos iniciados, destacou.

Além disso, afirmou que a Venezuela "queria se somar" ao mecanismo de compensação estabelecido pelo Brasil e pela Argentina, no qual utilizam suas próprias moedas.

Em resposta a uma pergunta sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, que ainda precisa ser ratificada pelo Senado brasileiro, Lula afirmou que a Casa "demora mais" do que gostaria em questões pendentes.

Ele acrescentou que, "no máximo em março", o Senado vai aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul.

Na quinta reunião trimestral, Lula e Chávez selaram 11 acordos, entre os quais figuram convênios para a cooperação científica e tecnológica nos setores alimentar e energético, assim como o compromisso de apoio estratégico por parte do Brasil, através da transferência tecnológica.

Os governantes presidiram o ato da assinatura ao concluir um percurso por dois projetos "socialistas" de produção desenvolvidos pelos dois países em Zulia, de onde Lula deve voltar ao Brasil.

Em seus discursos, os dois chefes de Estado se referiram a Barack Obama, que, na próxima terça-feira, assume a Presidência dos Estados Unidos, e expressaram a esperança de que sua chegada à Casa Branca marque o início de uma nova relação com a América Latina.

Lula expressou a esperança de que Obama "se dê conta de que deve resolver" a crise financeira internacional "o mais rápido possível" e que "não pode permitir que os países da América Latina e o Caribe que dependem das exportações dos Estados Unidos sofram com a crise".

Dirigindo-se a Chávez, o presidente brasileiro acrescentou: "Penso que, em algum momento, você e Obama terão que se encontrar (...), penso que Morales e Obama também terão que se encontrar (...) porque não vejo Obama como um presidente qualquer".

"Que um negro tenha sido eleito presidente dos Estados Unidos é um gesto extraordinário", ressaltou Lula, que destacou que "deve transformar esse gesto do povo americano em um gesto para a América Latina (...), respeitando nossa soberania e uma convivência igualitária".

Já Chávez se mostrou menos esperançoso em relação ao próximo presidente americano: "Não tenho muitas esperanças, mas não as perco, sobretudo quando acaba de chegar uma declaração de Obama dizendo o mesmo que (George W.) Bush (o atual governante americano)", expressou Chávez.

O presidente venezuelano reiterou hoje que Obama disse nesta semana que a Venezuela foi um fator de retrocesso na região e que apoia grupos como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Ele pediu ao Governo de Washington, com Obama à frente, que "olhe de outra maneira" para a América Latina, e brincou com a frase: "Faltava um negro (entre os presidentes da região), e chegou Obama", em alusão a um grupo de líderes que define como "progressistas" no continente.

Antes, Chávez disse que, nesse grupo, há uma mulher, que é a argentina Cristina Fernández de Kirchner; um operário, que é Lula; um médico, o uruguaio Tabaré Vázquez; um índio, o boliviano Evo Morales; um economista, o equatoriano Rafael Correa; um "bispo", o paraguaio Fernando Lugo, e um militar, ele próprio. EFE afs/db

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