A crise atravessou o Atlântico e a África e acompanhou o dia de ontem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Maputo, capital de Moçambique, país à beira de outro oceano, o Índico. Quando ainda eram 5 horas da manhã em Brasília, Lula acordou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e falou com ele por telefone - em Maputo já eram 10 horas.

Depois de ter avaliado que a crise financeira podia não passar de uma "marolinha" para o Brasil, ontem o presidente admitiu que o momento é de "apreensão", mas tomará todas as medidas para que o País "não seja pego de calças curtas e perca o patrimônio que acumulamos nos últimos anos".

Também por telefone, Lula falou com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Das conversas com a equipe econômica saíram as medidas que seriam anunciadas depois da reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) e que, a pedido do presidente, deveriam ajudar a "economia real".

A equipe econômica está incomodada com o fato de que as medidas adotadas até agora tiveram um resultado aquém do esperado no sentido de socorrer os setores mais afetados pela crise: as exportadoras e os bancos de menor porte. O presidente demonstrou irritação com a informação de que o dinheiro dos depósitos compulsórios, liberados pelo BC com o objetivo de irrigar os canais de crédito na economia, ter sido investido em títulos públicos. Tudo isso foi tema de uma conversa de Mantega e Meirelles que começou pela manhã e continuou à tarde.

Para Lula, a crise ainda não chegou à vida real do País. "Já viu alguém deixar de comprar feijão, comprar botão para a camisa e consertar sapato por causa da bolsa?", questionou o presidente na suíte do hotel em que estava hospedado. Mais tarde, numa entrevista, ele disse esperar que as bolsas encontrem o ponto de "equilíbrio". "A bolsa cai e sobe, a gente não tem que ficar preocupado", afirmou. "Penso que tem muita gente falando coisas contraditórias."

"O momento de crise é de apreensão. Nunca conversei tanto com o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central", contou o presidente num discurso para empresários brasileiros e moçambicanos. Antes de um encontro com o líder da luta contra o apartheid, Nelson Mandela, o presidente voltou a falar por telefone com o ministro Mantega.

O presidente aproveitou a visita a um país pobre da África, ex-colônia portuguesa, para reforçar o discurso de líder terceiro-mundista e cobrar dos países ricos a responsabilidade pela crise financeira. "Cadê a solidez da economia americana? Cadê o infalível Banco Central dos EUA? Cadê o infalível FMI? Cadê o infalível Banco Mundial? Cadê o infalível Banco Central Europeu?", questionou. "Será que eles não sabiam que seu sistema financeiro estava envolvido na maior agiotagem que o mundo conheceu?"

Ao criticar os paraísos fiscais, afirmou que "os trilhões de dólares que não geravam um posto de trabalho estão guardados debaixo do colchão de alguém". "Quem sabe está tudo nas Ilhas Cayman, porque na Suíça não está, os bancos suíços estão quebrando." Pediu que os países ricos paguem a conta e justificou: "Nós que fomos castigados por dizer que éramos socialistas estamos vendo agora os privatistas dos lucros querendo socializar os prejuízos do sistema financeiro dos países ricos".

Distorcendo parte do receituário do Consenso de Washington, Lula afirmou que "nos anos 80" os países ricos "diziam que os Estados deveriam ser abolidos e só o mercado resolveria todos os problemas". E emendou: "Agora o Estado passou a valer. Não podemos mais seguir um padrão viciado". Na opinião do presidente, "os emergentes, a periferia, estão salvando o centro do capitalismo."
As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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