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Lula critica uso da soja na produção de biodiesel

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou ontem um tom de prudência, ao manter sua incansável defesa do programa do biodiesel. Em Quixadá, no sertão cearense, ele alertou que a adoção da soja como matriz principal do programa de biocombustíveis é um equívoco e um erro.

Agência Estado |

"A soja tem seu preço determinado pelo mercado internacional, ou melhor pela Bolsa de Chicago, porque é commodity e, se o preço da soja subir muito no mercado internacional como subiu no começo do ano, fica caro para produzir biodiesel, e aí não é prudente."

Para ele, prudente é utilizar a soja quando há excesso de produção e o preço cai no exterior, "até para regular o mercado de soja". Mas, como matriz principal, é muito perigoso colocar tudo que for commodity com preço determinado fora do País. "É aquela desgraça que a gente de vez em quando vê acontecer e não sabe como tratar", disse a cerca de 2 mil produtores rurais, reunidos sob um imenso toldo climatizado. Os agricultores poderão produzir matéria-prima para biodiesel, como mamona e girassol.

"De repente, estou vendo a inflação brasileira causada por commodities e a gente não pode fazer nada porque o preço não é determinado no Brasil", reforçou o presidente, ao inaugurar a segunda usina de biodiesel brasileira, em Quixadá, pela Petrobras Biocombustíveis, subsidiária da Petrobras.

A usina representa um investimento de R$ 100 milhões e deverá funcionar, nos próximos seis meses, em fase de teste. A meta é que 50% da produção da usina - que deverá gerar 57 milhões de litros por ano - venha do pequeno produtor, que será estimulado a plantar as matérias-primas. Cerca de 8,5 mil agricultores de 161 municípios cearenses e mais 750 de 32 municípios do Rio Grande do Norte estão cadastrados para fornecer matéria-prima.

Ao falar no evento - prestigiado por cinco ministros, parlamentares e diretores da Petrobras e da Petrobras Biocombustíveis -, a representante dos pequenos agricultores, Antonia Ivoneide de Melo Silva, cobrou preço mínimo para matéria-prima, capacitação, crédito e assistência técnica. "O programa só é viável se o trabalhador não passar fome", destacou, ao exigir "soberania popular, alimentar e energética como direito do trabalhador".

Lula aceitou o desafio e conclamou os trabalhadores, representados por Contag, Fetraf, sindicatos e sem-terra, a se organizarem e a "acompanhar e denunciar ao governo o que estiver acontecendo de errado para poder consertar". "Se a gente consertar agora, pode ser um programa maravilhoso, se deixar andar errado pode-se estar plantando um monstrengo."

Ele pregou que não se pode permitir que o programa "caia nos desvios que outros programas bem-intencionados caíram no Brasil". Lula repetiu que a discussão do biodiesel não é fácil, tem causado polêmica e grandes debates pelos que dizem que a produção de biodiesel substituirá o alimento.

Didático, afirmou aos que trabalham na agricultura familiar que, "se alguém deixar de plantar o alimento e dedicar toda sua terra para plantar coisas do biodiesel está cometendo erro". Segundo ele, um agricultor não pode "deixar de produzir combustível para o seu estômago, para suprir uma necessidade energética e orgânica, para encher o tanque de um carro". "É totalmente compatível uma grande política de biocombustível e uma grande política de produção de alimentos."

Tábua de salvação

"Como o programa (do biodiesel) é muito novo, queremos transformá-lo quase numa tábua de salvação para uma parte empobrecida do País, mas também precisamos que outros setores produzam porque para colocar 5% ou 10% no óleo diesel, haja terra para produzir."

Lula defendeu a pesquisa e a combinação dos avanços tecnológicos na escolha das matérias-primas mais adequadas, o que pode levar cinco ou dez anos. "Quanto mais tecnologia a gente tiver, mais litros a gente vai produzir por hectare e menos terra vamos utilizar", exemplificou. "Vamos ter que escolher a oleaginosa que produz mais óleo por hectare."

O presidente voltou a se dizer convencido de que o programa de biodiesel é a grande oportunidade de desenvolver o semi-árido nordestino, conhecido como a parte mais miserável do País. "Nós brasileiros não podemos aceitar quer apontem os dedos sujos de óleo para o Brasil, que quer produzir um combustível limpo e renovável."

Lula deu os parabéns ao governador cearense Cid Gomes (PSB), que prometeu um subsídio do governo estadual no valor de R$ 200 por hectare plantado para o biodiesel. Segundo Cid, tudo o que o seu Estado produz hoje não dá para atender a 10% da capacidade da usina recém-inaugurada. De acordo com o presidente, o biocombustível não vai competir com o petróleo, será uma ajuda.

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