BELÉM - Poucas horas depois de encontros com autoridades israelenses em Jerusalém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seminário com empresários palestinos na vizinha Belém, fez duras acusações a Israel, classificando de cruel bloqueio as restrições impostas à economia nos territórios palestinos, com quem o governo brasileiro quer manter relações comerciais. A asfixia imposta à Cisjordânia e a Gaza impede que a Palestina se beneficie dos fluxos de comércio internacional , criticou, evitando citar Israel diretamente ao mencionar as medidas impostas pelo país aos palestinos.

Muito aplaudido pelos cerca de 200 executivos palestinos e brasileiros no seminário sobre oportunidades de negócios, Lula anunciou apoio ao plano de reconstrução de infraestrutura, escolas e hospitais, do primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina, Salam Fayyad, que prevê investimentos de US$ 5,5 bilhões em 201 projetos, com apoio de doadores internacionais. Vencer o bloqueio criado com muros e pontos de controle por Israel é o primeiro desafio para viabilizar o Estado palestino, comentou Lula.

" O Muro da Separação cobra um alto preço em termos de sofrimento humano e prejuízo material, sobretudo na faixa de Gaza " , criticou. " Divide famílias, afasta amigos, desarticula a produção. " A faixa de Gaza é dominada, desde 2007 pelo grupo radical Hamas, que nega o direito à existência do Estado de Israel e promove ações armadas contra o território israelense. " A derrubada do muro será apenas o primeiro passo para reverter anos de asfixia, desinvestimento e destruição " , disse Lula.

Para chegar a Belém, Lula foi obrigado a sair da limusine que o transportava e, a pé, trocar os carros de sua comitiva, ao atravessar a barreira e os pontos de controle israelense que cortam a Cisjordânia. Mais cedo, em Jerusalém, acompanhado do primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres, Lula havia visitado o Museu do Holocausto, um impressionante memorial aos milhões de judeus vítimas do massacre imposto por Hitler na Segunda Guerra Mundial.

" As duas maiores tragédias da humanidade foram o holocausto e a escravidão " , comentou, emocionado, e ouviu o reparo do rabino-chefe de Israel, Yisrael Meir Lau. " A escravidão desapareceu, mas a perseguição ao povo judeu continua " , disse o rabino, lembrando a eleição de Nelson Mandela, na África do Sul, e de Barack Obama, nos Estados Unidos. " Uma visita ao Museu do Holocausto é quase obrigatória aos seres humanos que desejam dirigir uma nação " , disse Lula, ao sair do museu. " Todos nós que lutamos por democracia, por direitos humanos, não podemos de maneira alguma permitir que ocorra algo como o Holocausto. "
Perguntado se Lula levará essa mensagem sobre o Holocausto ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que visitará em maio, o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, disse que " Lula já falou do Holocausto com o presidente do Irã " . Ahmadinejad recentemente classificou o Holocausto de " grande fraude " . Garcia negou que críticas levantadas pelos principais políticos em Israel contra a aproximação entre Brasil e Irã tenham afetado a visita, ou as relações com os israelenses. As divergências nesse ponto " já existiam " , minimizou, lembrando que o interesse de Lula pelas negociações de paz no Oriente Médio foi elogiado por todos os interlocutores.

(Sergio Leo | Valor)

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