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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou ontem o programa de habitação do governo federal avisando que não há prazo para a construção do milhão de casas prometidas e transferindo responsabilidades na gestão do plano. Não tem data.

Portanto, ninguém me cobre que nós vamos fazer 1 milhão de casas em dois anos", disse ele em discurso de improviso. "A gente não tem que se importar com o tempo. Eu gostaria que a gente terminasse em 2009, eu sei que não dá. Se não der em 2010, que vá para 2011."
Lula assegurou que não faltarão recursos para o programa. "Nós não vamos ter problema de gastar. Nós queremos gastar esse dinheiro, o quanto antes, melhor." Ele acrescentou, no entanto, que o sucesso do pacote depende também de Estados e municípios, já que o desembolso dos R$ 34 bilhões anunciados pelo governo só será feito à medida que os projetos forem apresentados pelos prefeitos e governadores à Caixa Econômica Federal.

O presidente anunciou ainda que vai criar um comitê gestor do programa habitacional para aliviar da tarefa sua candidata à sucessão, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. "Companheira Dilma, eu não quero dar essa tarefa para a Casa Civil coordenar, porque eu não quero mais trabalho para a Casa Civil." E explicou que pretende montar o comitê com representantes dos movimentos sociais ligados à habitação, centrais sindicais e representantes de Estados e municípios, além de parlamentares.

TEIAS DE ARANHA
"Então eu queria transferir responsabilidade, tornar coletiva essa responsabilidade porque vocês entendem mais de casa do que eu, vocês vivem o problema mais de perto do que eu. Quem é cobrado todo dia e faz as passeatas, é o movimento (social). Quem é xingado também é o deputado", comentou Lula, apelando aos prefeitos para que apresentem o mais rápido possível seus projetos.

"Vai depender muito de vocês. Agora, nós precisamos de projetos, para que a gente comece a desovar - a palavra correta é essa - esse dinheiro que o Guido (Mantega, ministro da Fazenda), com tanto carinho, resolveu liberar", disse Lula. Irônico, advertiu que, se os projetos não saírem rápido, o ministro poderia se arrepender e suspender os recursos, com a desculpa de que "o fluxo do Tesouro está se exaurindo".

Lula manifestou ainda o receio de que as "teias de aranha da máquina pública brasileira" retardem o programa. "Nós precisamos evitar que os papéis fiquem correndo de mesa em mesa 60, 90, 100 dias, porque senão o dinheiro vai ficando com cheiro de mofo." O presidente também pediu apoio ao Congresso para aprovar as medidas provisórias.

BURBURINHO
O anúncio do pacote foi feito sob medida para se transformar em carro-chefe da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República em 2010. Mas apenas dez governadores e um vice compareceram à cerimônia, no Palácio do Itamaraty, onde o burburinho político acabou substituído por palavras de ordem gritadas por integrantes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM).

"O povo, unido, jamais será vencido", exclamavam os militantes do MNLN. "Reforma agrária já, reforma urbana já!" Sorridente, vestida de vermelho, Dilma foi aplaudida sete vezes em meia hora de discurso. "Não há milagre aqui. É fundamental que a União aporte recursos para esse programa."
Dos governadores presentes, apenas três eram de oposição (dois do PSDB e um do DEM). O governador de São Paulo, José Serra (PSDB) - provável adversário de Dilma em 2010 -, enviou o secretário da Habitação, Lair Krähenbühl.

A ministra admitiu, porém, que o governo decidiu não estipular prazo para a construção de moradias porque o programa envolve a iniciativa privada, prefeituras e Estados. "Não temos como dar prazo porque há variáveis que fogem ao nosso controle. O que o presidente Lula mostrou é que nós fizemos a nossa parte. Nós colocamos o dinheiro. Nós bancamos", disse Dilma.

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