TOYAKO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ontem no G-8 tabelas dos maiores poluidores do mundo, encabeçada pelos EUA, e defendeu que é em cima de dados concretos de emissões que os países industrializados devem assumir compromissos de cortes de emissões de gases-estufa, em vez de pressionarem os emergentes.

Lula leu diante do grupo de presidentes e primeiro-ministros as listas mostrando que os EUA foram responsáveis por 21% das emissões globais em 2005, comparado a 1,28% no caso do Brasil. Os EUA emitiram 20 toneladas por habitante e 710 por quilômetro quadrado, e o Brasil 1,9 e 42 toneladas respectivamente.

Nem a Holanda, conhecida por seu engajamento ecológico, escapou: produzia 16 por toneladas por habitante e 6.593 toneladas por quilômetro quadrado. É pequeno, mas polui para caramba , afirmou o presidente sobre o país densamente povoados.

Acontece que China, Rússia e Índia, aliados do Brasil, também figuram com destaque na lista. Mas, nesse caso, Lula acha que deve ser levada em conta a responsabilidade histórica dos industrializados pela poluição, o que deveria fazê-los cortar mais.

Até aquele momento, as intervenções dos países ricos pareciam ter sido escritos pela mesma chancelaria e apenas traduzidas, segundo um participante. Insistiam que os emergentes deveriam assumir compromissos ambiciosos para reduzir emissões de gases-estufa, reconhecendo a diferenciação de responsabilidades.

Todo mundo parecia falar a mesma coisa, quando o diabo está nas nuances. A retórica diplomática ocultava diferenças de fundo entre ricos e emergentes sobre como descarbonizar suas economias, com impacto enorme sobre a produção e o consumo.

As tabelas de Lula implodiram esse cenário. O presidente americano, George W. Bush, que até então só tinha falado por um minuto, quase ignorando o debate, perguntou em tom bem-humorado: E qual o montante das emissões da Alemanha? Lula citou. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, olhou a tabela e disse ao presidente da África do Sul, Thabo Mbeke, que este polui mais que a França.

Depois de Lula ter lançado um amontoado de dados sobre energia renovável, benefícios do etanol e defesa das florestas, Sarkozy, em tom inflamado, disse que não dava para pedir aos países que estão se desenvolvendo para que parem de se desenvolver, mas que é preciso chegar a um consenso sobre como combater o aquecimento global.

O premiê da Austrália, Kevin Rudd, rasgou elogios a Brasil, Índia e China pela redução da pobreza e insistiu não ser justo pedir para esses países o mesmo sacrifício que os industrializados têm de fazer.

O presidente Lula reconheceu que o impasse é forte. Quem é muito industrializado, e país de grandes consumidores, não quer mudar seu padrão de vida. Veja se os americanos querem abrir mão de seus carrões que precisam quase de uma refinaria em cima , exemplificou.

Depois da apresentação das tabelas, uma nova reunião em bases numéricas foi marcada para o ano que vem no G-8 da Itália. O presidente Lula chegou ontem no início da madrugada (hora local) ao Vietnã, de onde segue para o Timor Leste e Indonésia.

(Assis Moreira | Valor Econômico)

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