Aos 58 anos de idade, a empresária Luiza Helena Trajano está desde 1991 no comando do Magazine Luiza, a rede varejista baseada em Franca, no interior paulista. Sob seu comando, a empresa deixou para trás as limitações de um negócio interiorano e se transformou no segundo maior grupo varejista do ramo de eletrodomésticos e eletroeletrônicos do País - logo após o Pão de Açúcar -, com 457 lojas e um faturamento de R$ 3,8 bilhões no ano passado.

Em entrevista à repórter Bianca Pinto Lima para a série Ser Empresário, do site de economia do Estado, que será colocada no ar hoje, Luiza Helena fala sobre temas como o impacto criado pela associação da concorrente Casas Bahia com o grupo do empresário Abilio Diniz, como sua empresa enfrentou a crise econômica e a atuação do governo.

A sra. disse há algum tempo que ficou uma semana de luto quando perdeu a disputa pelo Ponto Frio para o Pão de Açúcar. Como foi ver, menos de um ano depois, o Grupo Pão de Açúcar comprando outro rival tradicional, as Casas Bahia?

No caso do Ponto Frio, o Magazine Luiza fez tudo bem feito: tínhamos dinheiro disponível e crédito aprovado. Não seria um movimento inconsequente. A família ia vender ações para os nossos investidores. Mas o Pão de Açúcar foi mais experiente. Eles fizeram a proposta uma semana antes do combinado, aumentaram o valor três dias depois e, no dia seguinte, pressionaram e conseguiram fechar o negócio. Nosso investidor estava viajando e não pude fazer outra proposta. Eu não queria pagar esse preço - perder para aprender -, mas depois disso tivemos um crescimento muito bom.

E as Casas Bahia?

Agora, com as Casas Bahia, eu tomo uma atitude que aprendi: em vez de especular se esse negócio vai dar certo, eu procuro ver o que o Abilio Diniz fez de certo. Não posso dizer que não vai dar certo e ficar esperando por isso. O que descobri é que ele foi muito audacioso. Muito mais do que imaginava e do que eu seria. Nunca passou pela minha cabeça, por exemplo, a possibilidade de as Casas Bahia venderem mais de 50% de participação. Vi que preciso ter mais audácia.

Esses movimentos do Pão de Açúcar abalam o Magazine Luiza?

Isso só a prática vai dizer. Mas eu nunca menosprezo a concorrência, seja ela grande ou pequena. Ameaças, você tem todos os dias e temos de estar atentos a elas. Eles vão ter mais poder de compra, mas não acho que a indústria vai querer depender só deles e largar o segundo, o terceiro e o quarto lugares. Se eu mostrar resultados e consistência, eles vão querer investir no Magazine Luiza, assim como no terceiro e quarto lugares. É interesse da indústria pulverizar a distribuição e o mercado ganha com isso. Não consegui ver uma coisa tão assustadora no que aconteceu.

A sra. afirmou que o Magazine Luiza não tem pressa para entrar na Bolsa, mas que se tivesse de entrar já estava preparado. Passada a fase mais aguda da crise, este é um bom momento?

Não tenho nenhum tipo de pressão da família para entrar. Minha família e nossos investidores não têm essa pretensão pessoal. A Bolsa pode estar lá no alto que eles não vão chegar e me pedir isso. Queremos manter a empresa sustentável. O fato de estarmos preparados contabilmente e na governança é bom, mesmo sem estarmos na Bolsa. No momento certo, vamos entrar.

A empresa passou ilesa pela crise econômica?

Se você quer dizer não deixar de pagar nenhum de nosso títulos com atraso e não pedir prorrogação de pagamento de passar ileso, nós passamos. Aprendi com meus tios que pagar as dívidas não é mérito, mas obrigação. Em 52 anos de funcionamento, nunca deixamos de pagar ninguém. Mas não foi fácil. Tive de pôr o fluxo de caixa num bolso e a chave no outro, desde outubro de 2008. Sempre digo nas minhas palestras que rentabilidade não quebra empresas, mas fluxo de caixa quebra em 15 dias. Você tem de tomar muito cuidado com o que tem para pagar e receber.

A sra. teme alguma mudança na economia no período de eleição?

Acredito que o presidente Lula tomou as medidas certas quando precisava: emprestou pelo Banco do Brasil quatro vezes mais dinheiro do que o segundo colocado, pôs dinheiro diretamente nas financeiras, reduziu o IPI, e isso ajudou o País durante o pior momento da crise. Antes, quando alguém espirrava lá fora, nós íamos para UTI. Nessa crise, só pegamos um resfriado. É sinal de que estamos mais fortes.

O que sra. acha da perspectiva de eleição de uma mulher para a presidência?

Acho que precisamos de mais mulheres na política, assim como na área financeira e em vários outros setores. Na política, o que nós mais precisamos é de ética.

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