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O alfaiate francês Maurice Plas, de 82 anos, praticamente parou no tempo. Para ser preciso, em 1954.

O alfaiate francês Maurice Plas, de 82 anos, praticamente parou no tempo. Para ser preciso, em 1954. Época em que fundou sua loja na Rua Augusta, número 724. Desde então, a butique pouco se transformou. No começo, Plas se dedicava apenas à moda feminina. Hoje, oferece masculina. Antes, fazia vestidos. Agora, é conhecido pelos chapéus, que passou a confeccionar em 1972. E isso é tudo que mudou por lá. O resto continua igual. Conservador, Plas representa uma série de profissionais paulistanos que não querem saber de se adaptar aos "novos tempos". Na moderna São Paulo (principalmente da região central), há ainda barbeiros que aparam e pintam bigodes em cadeiras dos anos 1950, lojas de calçados com escadas e prateleiras de 1966, empórios de balcões centenários. Mas por que eles pararam no tempo? "Olha o tecido desse paletó", responde o alfaiate, com orgulho (e até um certo tom de arrogância). "Veja a costura, a qualidade. Em uma fábrica moderna, não se faz isso." Plas cria tudo à moda antiga. Literalmente. "Esse chapéu é igual ao que usavam na época da estilista Coco Chanel (1883-1971)", destaca. Ele não quer aprender novas técnicas. "Faço tudo assim", explica, enquanto mostra como usa o dedal e a agulha para tecer cada peça. "É por isso que compram. Um chapéu daqui é leve, gostoso de usar. O terno não estraga. São produtos únicos e, por isso, têm seu valor." Aliás, o preço não é baixo. Uma boina de couro custa R$ 450. O terno completo? "Não revelo, porque faço de acordo com a cara do cliente. E também não entrego esses segredos." Além dos preços, Plas esconde suas técnicas para criar calças, chapéus, coletes. Tradição. O estilo conservador de Plas se reflete em sua loja. Prateleiras, mesas e cabideiros estão dispostos da mesma forma desde a fundação. Há até um paletó de quase 50 anos, pendurado lá desde 1965. Para Robert Plas, filho do alfaiate francês que hoje cria as peças com o pai, é a tradição que atrai a clientela. "Quem vem aqui tem bom gosto, quer uma roupa de qualidade e um tratamento exclusivo", pontua. "Nossos fiéis compradores elogiam o clima nostálgico. Valorizamos o tempo em que o costureiro sabia até a cor preferida de cada um de seus clientes." A tradição também chama o público na loja de calçados Casa Tody, fundada em 1953 e desde 1966 no mesmo endereço, no número 2.634 da Rua Augusta. "Pedem para não mudarmos", afirma Vanessa Borger, de 37 anos, neta do fundador e ainda dono da empresa, o húngaro André Frank, de 89. "Elogiam a arquitetura, o fato de o vendedor conhecer os clientes fiéis." Segundo ela, muitos vão lá para curtir essa sensação de "voltei no tempo". Para seu avô, não é só isso. Tudo está preservado por um motivo. "Os sapatos permanecem em caixas, nas prateleiras, para não ficarem jogados pelo chão, como é nas lojas de hoje", explica. "A escada é circular porque as senhoras não gostam de mostrar as costas, expondo as pernas." Nostalgia. Também é pelo ambiente com jeitão de anos 1960 que há fila para cortar o cabelo e aparar a barba com Milton Greggio, de 67 anos. Na Barra Funda há 48 (no mesmo ponto, na Rua Lopes Chaves, há 15), o barbeiro faz questão de preservar essa aura. "Só atendo homens, uso cadeiras de 1950, tenho tesouras de 20 anos", relata. "E, como antigamente, ofereço doses de pinga e espalho revistas masculinas (algumas pornô) pela casa." É assim que Greggio gosta. Também é assim que ele garante os cerca de 20 serviços que faz por dia. "Aqui, lembro de minha época", diz o economista Ary Lisak, de 72 anos. "O barbeiro sabe de nossa vida, encontro amigos para bater papo." Todo dia, senhores sentam em cadeiras na porta do salão para conversar. História. "Manter essa aparência ainda é uma forma de preservar a memória da cidade", acrescenta Miguel Romano, de 50 anos, sócio da Casa Godinho, empório fundado em 1888 na Rua Líbero Badaró, no centro, que já passou pela mão de mais de dez proprietários. "Até apoio uma escritora que está nos ajudando a pesquisar a história da loja." Romano destaca que a valorização da memória serve para chamar a atenção da clientela. "Quem passa, admira a fachada, tem vontade de entrar", diz. "Isso nos torna diferente dos outros, que são meio iguais entre si. E prova que temos tradição e qualidade."

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