Por Adriana Barrera SAN SALVADOR (Reuters) - Presidentes latino-americanos defenderam na quinta-feira regras mais rígidas para o sistema financeiro internacional em meio a temores de um agravamento da pobreza na região pela crise financeira global.

Embora a América Latina esteja em melhores condições de enfrentar turbulências do que no passado, com economias mais estáveis e os cofres cheios graças ao recente "boom" no preço das commodities, analistas prevêem uma desaceleração no ritmo do crescimento.

"Todos somos vítimas do comportamento irresponsável daqueles que especularam com a esperança", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sessão plenária da Cúpula Ibero-Americana em San Salvador.

"Não podemos permitir que esta crise econômica, fabricada por especuladores que transformaram a economia e o sistema financeiro em um cassino, venha a proibir que um Estado faça os investimentos que tem de fazer", acrescentou Lula.

Muitos países culpam o governo dos Estados Unidos pela crise por não aplicar regulamentação suficiente sobre seu sistema financeiro.

Durante a primeira sessão da cúpula, que termina na sexta-feira, o presidente mexicano, Felipe Calderón, propôs medidas urgentes para contrabalançar o eventual aumento da pobreza, que afeta cerca de um terço dos 220 milhões de latino-americanos.

" é muito provável, porque a falta de emprego e o aumento dos preços dos comestíveis podem lançar em apenas um ano milhões de pessoas na pobreza", disse Calderón, cujo país, fronteiriço com os EUA, é especialmente afetado pela crise.

"Temos de gerar uma nova ordem econômica internacional... que permita um desenho equilibrado e uma supervisão e regulamentação muito mais severas do funcionamento dos sistemas financeiros internacionais", defendeu o presidente mexicano.

Além do efeito sobre o preço das matérias-primas, a desaceleração econômica dos EUA afeta também as remessas de dinheiro de imigrantes latino-americanos, essenciais para as pequenas economias da região.

RESPONSABILIDADES

Bancos Centrais latino-americanos queimaram reservas para defender suas moedas e tomaram medidas garantir a liquidez dos mercados, numa região que ainda traz viva a lembrança das sucessivas crises das décadas de 1980 e 1990.

Alguns países da região estarão presentes na reunião de novembro do G20 (grupo de países industrializados e emergentes), convocada por Washington para discutir a crise.

"O sistema financeiro internacional deve ser um instrumento útil a serviço da economia real, e não a serviço da especulação ..., da avareza e da ausência de responsabilidade social com o conjunto dos países", afirmou o primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero.

"O mito da desregulamentação tornou possível essa perversão. Tornou possível que, em lugar de ser útil à economia produtiva, o sistema financeiro tenha se transformado em uma perturbação muito séria da economia", acrescentou.

Zapatero pleiteia um lugar para a Espanha na reunião de Washington, apesar de o país não ser membro do G20.

(Reportagem adicional de Armando Tovar)

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