Ninguém vai deixar de comprar comida. Por isso, não é fácil driblar a inflação, que tem nos alimentos seu principal vilão.

Mesmo assim, os especialistas dão algumas dicas. Pesquisar preços, substituir marcas e comprar à vista são truques que eles ensinam para fazer o dinheiro render mais. "A hiperinflação ensinou o brasileiro a pesquisar preços. Agora, em tempos de relativa estabilidade econômica, fica mais fácil fazer esse trabalho", diz Cornélia Nogueira Porto, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

A aposentada Fátima Gouveia, 53 anos, lembra que, antes do Real, costumava gastar muito tempo pesquisando ofertas. "Eu pegava o jornal e ficava comparando preços em diferentes supermercados. Daí, aproveitava as promoções e fazia estoque em casa. Comprei até um freezer na época." Por conta da inflação atual, Fátima retomou algumas práticas do passado."Voltei a pesquisar em mais de um lugar e visito supermercados em dias diferentes, em busca de ofertas, e compro marcas mais baratas."

Além de mexer com o comportamento do consumidor, a inflação voltou ao topo da lista de reclamações do brasileiro. Isso é o que mostram duas pesquisas divulgadas recentemente. No levantamento feito pelo Ibope, a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a alta dos preços foi a principal preocupação relatada pelos 2.002 entrevistados.

O pessimismo com os rumos da economia fez a avaliação negativa do governo passar de 11%, (índice de março) para 12% em junho. No mesmo período, a desaprovação ao presidente subiu de 22% para 24%.

"Desde o início do Plano Real, passamos a observar uma relação direta entre o controle da inflação e a popularidade do governo", analisa Márcio Nakane, economista da Fipe. "Isso mostra que o brasileiro tem medo da inflação e dá bastante importância para a estabilidade econômica."

O bancário aposentado José Ismael Musitano, de 84 anos, já testemunhou a implantação de diversos planos econômicos. "Eu sei bem o que é não ter o menor controle dos seus gastos por conta da mudança constante de preços. Quando tinha hiperinflação, eu mal conseguia saber quanto era o aluguel, por exemplo." Agora, ele diz não saber o que esperar do futuro. "Acho que aquela inflação monstruosa não volta mais. Mas também não esperava que o preço da comida aumentasse tanto, e aumentou."

Muitos outros consumidores também não sabem o que esperar da economia nos próximos meses. Foi essa incerteza que fez o Índice de Confiança do Consumidor da FGV (que mede a percepção das pessoas sobre a situação da economia)recuar 6,5% em junho ante maio, ao passar de 114,6 para 107,2 pontos. Na comparação com o mesmo mês de 2007, o ICC caiu 1,7%.

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